O humor no espelho

Filme Super Mário Misto Brasil
Cena do filme Super Mário, que se espelhou em videogame/Arquivo/Divulgação

Os psicanalistas costumam afirmar: saber rir de si mesmo é uma capacidade que costuma ser considerada sinal de inteligência emocional

Por Mayalu Félix – DF

Ontem à noite fui a um show de stand-up do Jonathan Nemer, conhecido entre o público evangélico por ser ele mesmo evangélico e fazer muitas referências a este grupo social em suas falas – algumas vezes críticas, outras vezes entrecortadas de nonsense. Eu me vi em muitas piadas e ri praticamente o tempo todo. Saí de lá satisfeita com a noite e me dei conta de que algumas boas gargalhadas fazem bem à mente e ao corpo.

Já faz uns cinco meses que estou usando um par de óculos novos, mas ainda não me acostumei totalmente com eles, pois são multifocais. Por essa razão, em janeiro passado, quando eu saía do meu local de trabalho e me dirigia ao carro, o passo não acompanhou o olhar e caí de bruços. Estava, já, muito próxima ao carro. Ainda bem que caí em cima da terra fofa, com alguma vegetação rasteira, e não me machuquei. No instante da queda, fiquei paralisada.

Levantei-me, olhei ao redor e me certifiquei de que ninguém havia percebido. O lugar estava praticamente vazio e meu veículo estava longe da entrada do prédio em que trabalho. Entrei no carro e olhei pelos espelhos retrovisores para me certificar de que não havia ninguém à espreita: não havia. Respirei, aliviada. Fui para casa. Ao chegar em casa, uma colega de trabalho já havia me enviado uma mensagem, perguntando se eu havia caído e se eu estava bem.  “Foi só uma queda lá no estacionamento”, respondi. E completei: “Eu sou uma mulher madura, a senhora me entendeu?

Eu sou uma mulher MADURA… Então agora estou caindo é de madura… como eu estou madura, tá na hora de começar a cair…”  A essa altura eu já dava gargalhadas da situação, rindo de mim mesma, do meu cuidado para que ninguém visse a queda, do alívio ao me dar conta de que ninguém havia visto e da inutilidade disso tudo, porque no final das contas uma pessoa que nem estava lá já sabia do que havia acontecido. Ri muito, exatamente como eu ria do atrapalhado inspetor Closeau, em A Pantera Cor de rosa, ou de Jacques Tati, em Mon Oncle, para citar dois personagens atrapalhadíssimos que já me fizeram rir até perder o fôlego.

Rir de si mesmo é um exercício de maturidade, que demanda uma boa limpeza na arrogância do que achamos que somos. O povo que mais ri de suas próprias desventuras – muitas desventuras – é o povo judeu. Tenho aqui em casa dois livros de humor escritos por judeus. Comprei-os em Paris, estão em francês. Eu amo o povo judeu e sua cultura, aprendi assim com minha avó. Algumas das coisas que mais amo no povo judeu é sua resiliência, leveza e genialidade. O primeiro livro, aliás, chamado A bíblia do humor judeu, em tradução livre, foi escrito por um rabino e doutor em Filosofia, Marc-Alain Ouaknin, e por um doutor em Ciências, Dory Rotnemer. O segundo livro é As joias do ídiche, e foi escrito originalmente em inglês por Leo Rosten, escritor, professor e pesquisador, porém mais conhecido como humorista, jornalista e lexicógrafo.

Não se enganem: humor é coisa fina. O humor denuncia, serve como espelho, é politicamente incorreto e muito polissêmico, o que pode irritar aqueles que não admitem nenhum sentido fora daquilo que entendem de si mesmos e do mundo. Não é à toa que a proibição do humor pelo estado seja um dos mais fortes indícios de que vige um regime totalitário no país.

O grande semioticista italiano Umberto Eco escreveu O nome da rosa precisamente nesta temática: o catolicismo romano, que era o estado na Idade Média, aboliu o humor porque rir foi considerado um prazer carnal e mundano. Muitos têm visto a série The Chosen, na qual o personagem principal – Jesus – ri. Esse Jesus é inventado por roteiristas e sua caracterização vai bem além do que está nos evangelhos. Meu pai está vendo e me perguntou se eu também estava. Disse a ele que não, e que não veria, pois não tenho interesse nem tempo, mas vi mais de uma vez o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Muito além de qualquer iconografia que se faça de Jesus, creio fortemente que Jesus ria, sim. Ele ia a festas, gostava de crianças, andava em companhia de gente simples, iletrada, desprezada pelos doutores daquela época, os fariseus, para quem tudo era errado e feria a Lei. Os fariseus impunham pesadas cargas ao povo, pesados fardos frutos do legalismo, não do amor a Deus.

Mas esse pensamento é meu, com base em minha ideia de Jesus, que construí na leitura da Bíblia e ao longo de minha vida cristã. De fato, não há, nos evangelhos, nenhuma narrativa que explicite que Jesus tenha rido. Tampouco de que ele não tenha rido, de que tenha sido um homem carrancudo, taciturno, mal-humorado, sombrio, sorumbático ou afetado. Sabemos que Jesus chorou. Sabemos que se irou contra os mercadores do templo e “expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos comerciantes de pomba”, conforme relata o evangelho segundo Mateus. Ele se emocionou. Creio, realmente, que deve ter rido em diferentes momentos de sua vida neste mundo. Um dia estarei frente a frente com ele, então saberei.

O riso é uma dádiva de Deus. As emoções, bem ordenadas, são uma dádiva de Deus. Considero que o Criador teve um humor refinado ao ter escolhido um homem gago para liderar seu povo rumo à terra prometida. Mais fino ainda foi ter escolhido um perseguidor de cristãos, severo e austero, para cair do cavalo (literalmente) e se tornar um dos maiores líderes do povo que perseguia. Ninguém pode dizer que Deus não tem um finíssimo senso de humor, pois ele mesmo disse que “escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele”, conforme a primeira carta de Paulo aos Coríntios.

Ao longo da história do cristianismo, sabemos que “‘no período medieval, o fenômeno da risibilidade era encarado sob prisma eminentemente moral, de onde sua condenação’. Já a ‘modernidade consagrou a liberdade do riso, conferindo-lhe legitimidade como forma de expressão das emoções e dos sentimentos humanos”.[1] Bem diferentemente do que costumamos imaginar, “a cultura cristã latina do período medieval não foi atravessada pela ideia da culpa, pecado e arrependimento, como sugerem os textos dos representantes da cultura clerical, que era majoritariamente eclesiástica. Fora da esfera da Igreja, as manifestações do riso sempre estiveram presentes, nas festas, nos textos cômicos, composições musicais e imagens da cultura laica.”

O riso é inerente a nossa humanidade e tem a ver com inteligência e crítica. O humor pode aniquilar, no objeto da crítica, um senso próprio de si mesmo grandioso, associado ao orgulho e à arrogância. Figuras públicas objetos de piadas, chacota, ironia e humor, de modo geral, tendem a se sentir frequentemente ofendidas, pois isso altera a percepção que têm a respeito de si mesmas – quase sempre baseada na ideia de que são muito dignos ou de que merecem glórias e honras.

Ano passado eu estava pesquisando a respeito do silenciamento, junto com uma orientanda de TCC, e me deparei com um artigo da historiadora francesa Nira Pancer a respeito do silenciamento dos sons da natureza na Idade Média[2]. Cabe fazer referência a ele por causa do fenômeno do silenciamento. Na terceira parte do artigo, a autora, centrada na “cultura aural da Alta Idade Média” e na resposta à questão do silenciamento do mundo e sua substituição por uma ‘sonografia sagrada’”, escreve que os textos antigos têm muita informação sobre a paisagem sonora, enquanto os textos medievais antigos são muito silenciosos. A autora questiona o que teria ocorrido na passagem da Antiguidade para a Alta Idade Média, para que a diversidade de manifestações acústicas diminuísse de modo tão perceptível.

Esse “silenciamento do mundo” é o objeto do artigo, que busca entender o que estaria na origem do fenômeno: para N. Pancer, é necessário levar em conta a “dimensão didática da literatura hagiográfica e as motivações teológicas dos autores que pretendem sensibilizar os fiéis para uma ‘sonografia sagrada’”. Portanto, o fenômeno da supressão, no discurso, é antigo e diz respeito a mudanças estruturais na sociedade. O que é silenciado no discurso deixa de fazer parte da nova cultura e adquire status de proscrito, seja o humor, associado à carnalidade, seja a paisagem sonora, associada a misticismos.

A Igreja Romana entendia que relatar sons de aves em narrativas, por exemplo, podia fazer referência à ornitomancia, assim como o som de trovões, rios, mar etc. adquiriam um sentido místico em religiões pagãs politeístas. Houve uma reformulação do sentido do silêncio, por causa da censura, e ele passou a ser ligado mais a questões reflexivas, formadoras de uma “sonografia sagrada”.

Do mesmo modo, o humor costuma ser absolutamente silenciado em estruturas sociais totalitárias: a proibição é oficial em países como Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Irã, Afeganistão, China etc.  Sistemas que infundem significados pré-determinados, já construídos, como os únicos possíveis, a fim de determinar a circulação dos sentidos, não suportam a polissemia do discurso lúdico do humor e tudo o que ela possa acarretar: reflexão, crítica, novas percepções, desmistificações.

Comecei este texto falando que devemos rir de nós mesmos e diminuir nossa autopercepção grandiosa e intocável. Termino redizendo o que os psicanalistas costumam afirmar: saber rir de si mesmo é uma capacidade que costuma ser considerada sinal de inteligência emocional. E não há nada de errado com isso.

[1] Disponível neste link

[2] Le silencement du monde, publicado em 2017 na revista Annales. Histoire, Sciences Sociales (uma publicação da lendária EHESS – École des Hautes Études Sociales, de Paris), p. 663. Disponível neste link

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