A saga da Cidade Livre

Brasília Cidade Livre 1958
Vista aérea de parte da Cidade Livre, de 1958/ Cidade Livre, em 1958/Arquivo Público do Distrito Federal)

Durante o tempo da construção, que teve início em 1956, puderam construir e empreender à vontade, sem pagar imposto

Por Sergio Botelho – DF

No dia da inauguração de Brasília, debaixo das maiores pompas, havia um povo, a 20 quilômetros do epicentro dos acontecimentos festivos, que fazia de tudo para seguir seu ritmo normal.

Nem parecia aos moradores da Cidade Livre que até outubro daquele ano de 1960 eles teriam de deixar suas casas, a esmagadora maioria de madeira, além de seus negócios, e cada um voltar para a região de onde vieram ou adquirirem algum imóvel e meio de vida em qualquer das cidades satélites.

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Durante o tempo da construção, que teve início em 1956, puderam construir e empreender à vontade, sem pagar imposto. Desde que depois da cidade inaugurada fossem embora, exatamente em outubro de 1960, quando deveriam pegar0 o beco.

No entanto, segundo matéria do Estado de São Paulo, do dia 21 de abril de 1960, “o conjunto é hoje um conglomerado onde se encontram firmas de todos os ramos: bancos, mercearias, agencias de ônibus e de aviões, casas de autopeças, hotéis, alfaiatarias, lojas de armarinhos, de artigos elétricos, e também advogados, médicos, engenheiros, professores e padres.

Levantaram-se igrejas, escolas, uma biblioteca, instalaram-se postos de assistência médica, ambulatórios e um escritório da Novacap, que funcionou como uma espécie de subprefeitura”.

Querem saber mais: pensões e dormitórios da Cidade Livre acabaram resolvendo a situação de centenas de pessoas que chegaram a Brasília para a inauguração e não encontraram alojamento.

De que forma tudo isso podia ser desmanchado em troco de um retorno a um ponto de partida de futuro duvidoso? Segundo a mesma matéria comentava, “eles não têm a menor intenção de deixar o local… e afirmam abertamente que não deixarão a Cidade Livre por meios legais…” Não deu outra.

O poder público teve de correr atrás do prejuízo, ao longo do tempo, dando condições estruturais ao local, que passou a ser definitivamente conhecido com Núcleo Bandeirante, e que é hoje uma das cidades satélites mais tradicionais da capital federal, preservando parte da memória da construção da capital.

A área é conhecida por seu sentido de comunidade, suas festividades e por manter vivas as tradições culturais dos pioneiros que ajudaram a construir a cidade.

A localidade também abriga museus e espaços dedicados à memória da construção de Brasília, servindo como um importante símbolo do esforço coletivo que contribuiu para a realização do sonho de uma nova capital para o Brasil.

Nos 18 anos que passei em Brasília, sempre que podia ia me abastecer de peixe, galinha de capoeira, queijo de coalho e de manteiga, e bode no mercado do Núcleo Bandeirante, onde a gente sentia mais fortemente a sensação de estar numa cidade nordestina com ruas e esquinas de verdade.

(Sérgio Botelho é jornalista)

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