Brincando nos campos do Senhor

Renascença italiana Pintura mão de Deus Misto Brasília
Pintura da Renascença Italiana que marcou uma grande mudança na humanidade/Arquivo/Reprodução

O século XXI parece ter chegado apenas para um grupo de capitalistas. Fatos como no Mediterrâneo e do submarino mostram isso

Por André César – SP

O clássico e maravilhoso filme de Hector Babenco, do início dos anos noventa, serve de inspiração para o presente artigo. Um submersível, pretenso submarino, leva um grupo de bilionários ao fundo do mar, a custos elevadíssimos, com resultado trágico. No Mediterrâneo, levas incontáveis de pessoas enfrentam a morte em busca de uma (legítima) vida nova. Que mundo é esse?

As informações recentes são lamentáveis. Os cinco ocupantes do submersível, de uma empresa privada, infelizmente estão mortos. Ao que tudo indica, tratou-se de aventura quixotesca, com instrumentos rudimentares e tecnologia de garagem. O século XXI parece ter chegado apenas para um grupo de capitalistas – por sinal, o CEO da empresa que comandou a aventura estava a bordo.

Algumas reflexões. Em primeiro lugar, no âmbito da viagem, os valores pagos chamam a atenção. Perto de 250 mil dólares para descer quatro mil metros e ver – e fotografar – os destroços do Titanic me soam absurdos. Não pelo valor em si (quem pode pagar, que pague), mas pelo caráter mórbido da empreitada. E pelos riscos nela embutidos.

Apenas para registrar, o número de humanos (nós) que foram ao espaço é maior do que aqueles que desceram ao oceano mais profundo para ver relíquias como os destroços do Titanic. Em suma, trata-se de um universo a ser explorado com extremo cuidado. A natureza cobra sua fatura, acabamos de ver.

Indo além, pensamos em questões éticas e morais. Sem entrar no mérito e sem citar nomes, falo aqui de figuras globais que, expoentes em suas áreas de atuação, criam fundações e repassam recursos (dinheiro) para os mais necessitados. Países da África, em especial, agradecem e respiram melhor com isso. O desenvolvimento de vacinas contra as mais diversas doenças resume esse quadro.

Entramos no coração do debate. No Mediterrâneo vive-se, há tempos, uma tragédia real, com milhares de pessoas mortas tentando chegar ao maravilhoso Ocidente. Imagens que circulam na mídia e nas redes sociais por, no máximo, poucas semanas, e logo são esquecidas. Uma crise crônica, que parece fora da agenda global. Afinal, qual vida vale mais? Todos somos iguais.

Retornando. O ser humano, ao encarar certos “desafios”, parece quer brincar nos campos do Senhor. Agnóstico que sou, creio que devemos respeitar a natureza. E olhar cada vez mais para o próximo. Chega de desigualdade.

E paremos de brincar em determinados campos.

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