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Chips, um novo petróleo na economia da desatenção

São elementos essenciais de tecnologias emergentes como 5G, computação quântica, Inteligência Artificial

Por Charles Machado – SC

Chips, pouco maiores que um fio de cabelo, são a principal arma na nova guerra comercial do mundo. Afinal por qual motivo, um objeto tão minúsculo tem afetado a produção de diversos setores da economia, de celulares, aos automóveis, de tablets a geladeiras, e passou a ficar no centro desse debate?



Certamente você já leu ou sentiu inúmeras vezes, a escassez global de chips e que em alguns lugares esse problema vem sendo chamado de chipaggedon (o Armagedon do Chip), na verdade, o resultado de uma conjunção de eventos. Para melhor conceituar, os semicondutores, também conhecidos como circuitos integrados ou chips, são pequenos dispositivos eletrônicos, baseados principalmente em silício ou germânio, que permitem quase todas as atividades industriais, desde o funcionamento de smartphones e computadores pessoais até os sofisticados sistemas de defesa dos exércitos modernos.

Logo também são elementos essenciais de tecnologias emergentes como 5G, computação quântica, Inteligência Artificial ou sistemas de condução autônoma. Eles consistem em bilhões de componentes com propriedades únicas que permitem que os dados sejam armazenados, movidos e processados através da corrente elétrica.

É bom lembrar que em 1965, o co-fundador da Intel Gordon Moore promulgou a famosa lei que leva seu nome e acompanhou a indústria por décadas: o número de transistores que podem ser inseridos em um chip dobrará a cada 18 meses. Neste momento, os fabricantes mais avançados do setor, como Intel, Samsung e TSMC, trabalham em nódulos abaixo de 10 nanômetros (nm). Cada redução no tamanho do nó é considerada um passo para uma nova geração de dispositivos tecnológicos por causa das novas funcionalidades que são capazes de integrar.



Empresas como a taiwanesa TSMChan anunciaram que até o final deste ano colocarão suas primeiras fábricas de 3nm em operação, ou seja a cada dia menores e com mais capacidade de memória. Seguindo a lógica da “economia da desatenção”, onde todos brigam para por sua atenção e pela possibilidade de transformando essa atenção em mais dados, que por sua vez quando tratados podem gerar mais negócios, monetizando assim a sua atenção, logo a briga pela monetização da sua atenção implica em uma profusão sem limite de dispositivos e conteúdos que precisam a cada dia de mais capacidade de memória. O resultado disso acaba sendo uma ampliação gigantesca na necessidade de se armazenar mais dados em espaços menores acelerando a guerra dos chips.

Logo novas normas entram em ação buscando atrasar o desenvolvimento de potenciais concorrentes na disputa da ampliação da memória.

Esses novos diplomas que procuram prejudicar os fabricantes de chips da China, podem produzir também como resultado, mais inflação, fazendo com que o tiro saia pela culatra.
Com o intuito de privilegiar os fornecedores norte-americanos, os legisladores esqueceram de algo bem simples, essa indústria é altamente globalizada, e isso resulta em aumento de custo. O propósito de Washington é frustrar a ambição da China de fabricar semicondutores avançados de 3 a 14 nanômetros.



Os chips mais baratos e simples são os de 14 nanômetros ou mais

Esta não é a primeira vez que os EUA atacam as ambições da China em chips, mas as regras atuais são, de longe, o controle mais eficaz até o momento, representando um obstáculo considerável para inúmeras empresas de tecnologia chinesas, de fabricantes de chips a especialistas em IA.

Nômetros, uma unidade de comprimento igual a um décimo milésimo do diâmetro de um cabelo humano, são usados para medir a largura entre os vários transistores em um chip. Quanto menor essa medida, mais transistores, blocos de construção que permitem a passagem de sinais elétricos e eletricidade, caberão em um único chip de silício, tornando-o mais poderoso.

Consequentemente, os chips de menor número terão mais transistores amontoados na mesma área e oferecerão velocidade de processamento superior. Semicondutores que usam processos de 7 nanômetros e menos são essenciais para os mais recentes produtos de consumo. Os iPhones, MacBooks e telefones Samsung Galaxy da Apple usam chips de 5 nanômetros, enquanto o PlayStation da Sony usa chips de 6 nanômetros, para ficarmos em dois exemplos.



Nesse momento, apenas dois países, Taiwan e Coreia do Sul, tem tecnologia para fabricar esses chips de ponta, de modo que, entre eles, eles representam quase metade do mercado global de semicondutores. O resto adere aos chamados chips “tradicionais”, mais antigos. Os EUA respondem por 12% do mercado global de chips, mas suas empresas não podem fabricar chips high-end em larga escala.

Os EUA começaram a restringir as exportações de tecnologia para a China sob Donald Trump. Naquela época, embora as reduções fossem acompanhadas por uma linguagem mais hiperbólica, sua intenção era mais limitada. Até o momento, a intenção dos EUA era manter uma diferença de cerca de duas gerações, ou cerca de quatro anos, entre a capacidade de produção da China e a do resto do mundo.

Seja qual for a maneira como você olha para isso, os custos aumentariam para os fabricantes ocidentais e seus clientes, já que nos últimos cinco anos a China silenciosamente abocanhou uma parcela crescente do mercado de chips baratos, que agora são usados em quase todos os eletrônicos de consumo e equipamentos industriais.

A China já responde por quase um quinto da produção global de semicondutores, superando em muito os Estados Unidos. Atualmente, o país asiático pode fabricar chips low-end internamente com tecnologia de 14 nanômetros e anteriores, e atingiu um nível globalmente competitivo quando se trata de chips NAND, que são usados para armazenar dados.



A vantagem da China reside em sua capacidade de vender chips a preços. consideravelmente mais baixos do que os dos seus rivais. Pequim investiu mais de US$ 100 bilhões em “ajuda” ao seu setor local de chips, e aqui eu acentuo a palavra ajuda pra chamar a atenção dos liberais de plantão, que se esquecem que toda indústria de ponta do mundo só tomou esse tamanho, seja por financiamento público, ou por renúncia fiscal, ou as duas coisas juntas.

Carros elétricos precisam de mais de 2.000 chips cada, mais do que o dobro de seus equivalentes a gasolina. Desses milhares de chips, apenas alguns são high-end, entre 3 e 14 nanômetros. O resto são chips mais antigos, um mercado gigante, até mesmo para nossa indústria brasileira, o que dá a medida da importância de uma política pública de incentivos, claro que para alguns parece ser mais importante discutir sobre a instalação de impressoras nas nossas urnas digitais ou sobre o risco do Brasil virar um país comunista. Pobre Brasil que perde tanta energia com lunáticos de plantão.