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Cidades inteligentes e a mobilidade inclusiva

Soluções devem ser pensadas quando são transversais, com a melhora da ampla maioria da população

Por Charles Machado – SC

Quase sempre o homem olhando para seu umbigo entende que resolvendo o seu problema tudo está resolvido, esquecendo que viver em sociedade implica em compartilhar problemas, alterando-se apenas o grau de alcance desses.

Quando eu defendo a ampliação do número de pavimentos no meu bairro, eu tenho a certeza da valorização dele, mas ao mesmo tempo devo ter claro que o trânsito deve piorar, isso pra ficarmos em um só exemplo.

Logo as soluções devem sempre serem pensadas quando são transversais, com a melhora da ampla maioria da população atingida, pois a dinâmica de deslocamento nas cidades implica no envolvimento de todos nas soluções e nos problemas.

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As cidades inteligentes, tão utilizadas em discursos em períodos eleitorais só serão inteligentes quando colocarem o homem no centro da sua estratégia tecnológica.

Logo nesse período pós pandemia, o que acontece com todos esses modelos quando os hábitos de trabalho e de estudo evoluem e se tornam progressivamente mais líquidos, mais híbridos e mais flexíveis?

Certos da necessidade de redução do deslocamento das pessoas, seja para o trabalho ou para o ensino, os bairros precisam ser repensados, com a dinâmica inclusiva de oportunidades para todos de trabalho e ensino, em que pese o imenso desafio.

Para o Banco Mundial, cidades inteligentes são aquelas que praticam políticas baseadas em intensidade tecnológica e em inovações direcionadas à melhor eficiência dos serviços e do aproveitamento mais sustentável de seus recursos.

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Há exemplos que podem ajudar

Algumas ações podem bem ilustrar essas políticas, como na cidade de São Caetano do Sul (SP) que com 20 mil alunos na rede municipal de Educação, possui 100% das suas escolas com Wi-fi, onde a matrícula é online, evitando filas e ajustando melhor a distribuição dos alunos de acordo com o seu endereço.

Mais do que ofertar equipamentos aos alunos como tablets, lousas digitais, entre outros, é fundamental estender a conectividade às atividades escolares e aos serviços disponíveis como marcação de consultas ou mesmo a oferta pública da telemedicina onde ela seja possível, pois evitar deslocamentos desnecessários implica em facilitar a vida das pessoas.

Essas mudanças devem vir acompanhada com a melhoria do mobiliário logístico, tanto o coletivo, com a qualificação e conforto dos pontos de ônibus, como a introdução de ciclovias e bicicletários nos pontos de ônibus, quantos são os terminais de ônibus na sua cidade que disponibilizam bicicletários seguros para essa integração logística da micromobilidade?



Quantas são as empresas que ofertam bicicletários seguros para o estacionamento de bikes e patinetes? Quantas são as cidades que reformularam a sua legislação criando essa obrigação de ampliação e oferta dos locais de carregamento de bikes e patinetes elétricos em escolas, edifícios e centros comerciais? A inteligência das cidades passa pela melhoria no deslocamento e a redução do tempo perdido nos engarrafamentos, não existe inteligência quando perdemos dias do nosso tempo ao longo do ano presos em engarrafamentos.

Para se ter uma ideia do que se pode fazer, em São Paulo, cerca de 21% da população mora, no máximo, a 300 metros de uma infraestrutura cicloviária (segundo a plataforma digital Mobilidados, que analisa a qualidade da mobilidade nas capitais do Brasil), logo imagine se as condições para os ciclistas forem melhoras?



Logo veja o impacto em ampliar bicicletários seguros com vestiários, chuveiros e armários, com chave? Todo esse espaço, com a mudança de hábitos precisa ser redimensionado.

Por mais que o costume tenha nos levado a pensar, por gerações, que nossa maneira de pensar sobre as cidades e nossos hábitos de trabalho e de estudo nelas eram algo razoável, a realidade é que não é de todo. Reunir trabalhadores e estudantes em uma área específica para a qual eles têm que fazer uma peregrinação todas as manhãs, com um cronograma fixo que causa todos os tipos de engarrafamentos, para realizar tarefas que, na realidade, eles podem fazer, como vimos há mais de dois anos, de qualquer outro lugar, é algo que não tem justificativa.



Políticas devem ser melhores adaptadas

Estamos em um caminho sem volta das flexibilizações das relações, o que não é bom para todos, mas é inevitável. Logo é fundamental nesse caminho, gerenciar a transição em termos de flexibilidade e segurança para pessoas e organizações.

Logo fique longe dos extremos eles ficam ótimo para discursos inflamados e péssimos na realidade, liberais que acreditam que o mercado resolve tudo, existem apenas pela fé ou pela inocência em imaginar que os fortes quando podem não exercem sua força, exercem sim e maximizam suas posições não importando quem vai sangrar, se é o seu bolso ou o seu emprego.

É evidente que o emprego é cada vez mais diverso, e isso implica que as políticas devem ser melhor adaptadas a esse cenário se pretendemos ter cidades mais inteligentes. O progresso em direção a uma maior flexibilidade está nos mostrando que o compromisso dos trabalhadores aumentou, dissipando o mito de que a flexibilidade prejudica os resultados, o que pode ser visto nos trabalhos executados em casa ao longo da pandemia.



Tudo nos leva ao fato de que no processo, a equação entre mais tecnologia, mais flexibilidade e melhor resposta às adversidades extremas tornou-se aparente. É a flexibilidade, especialmente a flexibilidade facilitada pela tecnologia, que nos permitiu responder à pandemia, pois tente imaginar as respostas das organizações à pandemia sem as flexibilizações?

A robotização nos leva a necessidade de se refundar nosso sistema social, diante da nova economia que surge, é preciso termos soluções para as necessidades básicas, pois esses não conseguem esperar, não se trata de cortar o yogurt, mas resolver como comprar o arroz e o feijão.

Trabalhar meio período, se tornar empreendedores, ou procurar empregos tradicionais entre aqueles que permanecem como tal, tarefas para as quais é interpretada que a participação humana, não a robótica, continua a fornecer um certo valor agregado, cidades inteligentes pressupõem economia de recurso e colocar o homem no centro das suas decisões.

(Charles Machado é consultor e advogado com atuação em São Paulo e Florianópolis e articulista do Misto Brasília)