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Cidades inteligentes, onde?

O inventário das tecnologias e dos equipamentos é o primeiro passo para uma cidade mais inteligente

Texto de Charles Machado

Para o Banco Mundial, cidades inteligentes são aquelas que praticam políticas baseadas em intensidade tecnológica e em inovações direcionadas à melhor eficiência dos serviços e do aproveitamento mais sustentável de seus recursos.



Na área energética, soluções que visam a utilização mais racional da eletricidade, digitalização e substituição de combustíveis menos poluentes são partes cada vez mais importantes nessa transformação, logo o transporte público está inserido nessa transformação. Sendo assim a integração inteligente combinada de modais integrados, disponível com a projeção de tempo das viagens através de aplicativos públicos é uma senhora mão na construção dessa cultura, pois de forma integrada ônibus, metrô, VLT, bikes e patinetes fazem a diferença.

Mas isso me parece muito pouco, um misto de acomodação com o que podemos fazer mais e melhor? Com tantos dispositivos e sistemas rodando o tempo todo sem se conversar, penso que o maior desafio que a cidades com a pretensão de serem chamadas de “ inteligentes” é entender como a tecnologia disponível na cidade pode se conversar? Como o público conversa com o privado em prol de melhoria para todos? Como os três entes federativos se conversam na melhoria e simplificação na coleta e tratamento de dados? Afinal qual o sentido temos em fazer as pessoas estarem cadastradas em diversos órgãos quando a mera integração desses sistemas poderia e muito melhorar a vida do cidadão, ou das empresas daquela cidade.

O diálogo das partes, pública e privada, a disponibilização do trabalho conjunto, o inventário das tecnologias disponíveis, e dos equipamentos disponíveis, é o primeiro passo para o estabelecimento de uma cidade mais inteligente.



As cidades startups, como chama Renato de Castro, precisam ter a compreensão que a tecnologia precisa ser plural, transversal e disponível para todos e não apenas para poucos. Se seguirmos a lógica mercantilista teremos dificuldade para avançar, na lógica de que quem se beneficia é quem paga, sem aprofundarmos que tem diversas formas desses sistemas serem auto financiáveis, sempre é claro resguardando a privacidade e a intimidade das pessoas.

A transformação digital, com a incorporação do home office é um senhor estímulo para esse repensar, não apenas a logística das cidades mas o desenhos dos bairros a disponibilização e a oferta de todos os serviços de forma distribuída, evitando deslocamentos desnecessários. Nesse item é preciso dotar todo cidadão de informações on-line sobre a logística pública para ele decidir pelo melhor modal, de forma integrada.

Devemos lembra que a cidade, por ser o local no qual a vida urbana acontece, torna-se estratégica às empresas baseadas na monetização dos dados, pois apresenta elevado potencial de geração contínua de dados do coletivo, inclusive de pessoas não inseridas formalmente nas redes digitais. A proposta corporativa de smart city, portanto, não seria possível sem a dataficação, que pressupõe a quantificação e o monitoramento contínuo da vida humana, visando transformar todas as ações, comportamentos e perfis em dados comercializáveis a partir da criação de sensores e algoritmos desenvolvidos especificamente para esse fim, como bem destaca Sérgio Amadeu na obra coletiva “Colonialismo de dados” .



Como o autor destaca, essa mercantilização da vida, difundida globalmente, deve ser entendida da mesma forma que o modo de produção capitalista ou mesmo o neoliberalismo: apesar de serem fenômenos globais, afetando diferentes sociedades, seu entendimento não pode ser universal, ou seja, sem considerar particularidades históricas, sociais, econômicas e políticas de cada região ou país.

Lembro que tecnologia que vence sempre será aquela que represente um aumento da comodidade e do conforto para seu usuário, e isso não depende apenas da solução, mas também de um conjunto de fatores que venham a recepcionar essa nova tecnologia.

A transformação digital que aperfeiçoa e melhora as cidades, precisa estar dentro de uma estratégia de valorização da cultura nacional, um olhar local com a que ocorre fora como referência.
Lembro que a “ Estratégia Brasileira de Transformação Digital” , documento oficial do governo federal que, lamentavelmente, não destaca valores de incentivo à inovação nacional, ao desenvolvimento científico e tecnológico próprio, bem como não aponta os saberes comunitários e acadêmicos nacionais como forças ativas na modernização tecnológica do país.



Ainda que proponha uma construção coletiva de soluções considerando necessidades regionais, o documento apresenta um modelo de transformação digital para cidades com base em coleta de dados por meio da internet das coisas. Ainda que aponte a necessidade de anonimização dos dados e segurança cibernética, incentiva a digitalização de processos da administração pública por meio da construção de bancos de dados robustos e centralizados para desburocratização, modernização e aumento da eficiência dos processos e serviços públicos.

É um documento de partida sim, mas precisa ter a participação plena da sociedade civil organizada, na manutenção dos valores culturais e na geração de riqueza local.
Cidade inteligente sempre será aquela que as pessoas vivam, e não apenas sobrevivam.