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A fome na agenda brasileira

País vive um quadro de incerteza e medo. A pandemia colaborou, mas há outros fatores

Texto de André César

Os dados são públicos e chocam pela crueza. Nada menos que 20 milhões de brasileiros, cerca de 10% da população, declaram não ter o que comer durante alguns dias. Outro contingente, de aproximadamente 24 milhões de pessoas, não sabe como se alimentará e reduziu a quantidade e a qualidade da comida. Menos calorias, menos nutrientes.

O país vive um quadro de incerteza e medo. De acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 55% da população enfrenta algum tipo de insegurança alimentar – grave, moderada ou leve -, situação impensável até pouco tempo atrás. O Brasil regrediu.



É evidente que a pandemia colaborou fortemente para essa nova realidade, mas há outros fatores em cena. O principal é a atuação do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), cujas ações por vezes desatinadas levaram o país a um crescimento econômico medíocre. A população paga a conta.

Para piorar, a inflação galopante, já em dois dígitos, afeta a todos, mas especialmente os mais pobres. O arroz com feijão de cada dia tornou-se artigo de luxo. Ir ao supermercado significa entrar em uma casa de horrores.

O mais novo ingrediente desse terrível caldeirão é a busca por restos de alimentos – ossos, carcaças, pele, tudo o que for minimamente aproveitável. Famílias disputando espaço e comida com outros animais. As imagens doem.



Às vésperas da campanha eleitoral, espera-se que partidos e candidatos coloquem o combate à fome como prioridade absoluta. Trata-se de um tema emergencial, ao qual as lideranças não podem virar as costas.

Nada mais atual, desse modo, que a (re)leitura do clássico “Geografia da fome”, de Josué de Castro. Publicado no longínquo 1946, o trabalho joga luzes sobre os dias de hoje. Texto fundamental para aqueles que desejam enfrentar de maneira real a crise de agora.