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Bolsonaro em cinco pontos

A um ano das eleições, há diversas questões de relevância postas à mesa, como a pandemia e o meio ambiente

Texto de André César

Faltando menos de um ano para a sucessão presidencial, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem diversas questões de relevância postas à mesa. Selecionei aqui cinco delas que, de alguma maneira, terão impacto nos próximos meses e afetarão a campanha de 2022.

– André Mendonça e o Senado Federal – segue sem solução o imbróglio envolvendo a sabatina e votação do indicado para o Supremo Tribunal Federal, André Mendonça. O quadro inclusive piorou nos últimos dias, com troca de farpas públicas entre o titular do Planalto e o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), que praticamente barrou a matéria no colegiado.



Dadas as dificuldades, que incluem a falta de votos para aprovar o nome de Mendonça, Bolsonaro já pensa em um plano B. Aqui reside um problema – caso ele rife o atual indicado e aponte outro nome para a cadeira, esse também precisará ser “terrivelmente evangélico”. Do contrário, parcela significativa dos evangélicos que apoiam o governo podem se afastar do Planalto. Silas Malafaia, importante liderança do grupo, tem feito duras críticas à postura de ministros que não trabalham em prol do indicado. O ambiente é o pior possível.

– O Brasil na COP 26 – o Brasil e o governo Bolsonaro estarão no centro das atenções na COP 26, que ocorrerá nas próximas semanas em Glasgow, na Escócia. A política ambiental brasileira será novamente pressionada por governos, investidores e demais entidades. O país corre o risco real de se isolar definitivamente na comunidade internacional, caso não haja uma mudança de rota.

Para o presidente da República, essa mudança de rumos representa um problema. Nesse caso, ele romperia com setores que hoje o apoiam, como parte do agronegócio (mas não todo), empresas que atuam ilegalmente na Amazônia e o corte mais radical dos bolsonaristas. É pouco provável que a atuação do governo sofre alterações de peso após a COP 26.




– Covid e vacinação – ao afirmar que desistiu em definitivo de receber as doses da vacina contra a Covid, Bolsonaro reforça os laços com seus apoiadores mais radicais. O presidente chegou a um ponto no qual não pode mais recuar em seu discurso, sob risco de perder o apoio que ainda tem, de pouco mais de 20% do eleitorado.

O titular do Planalto segue em sua bolha. Muito pouco para quem tem pretensões de reeleição. Nesse quadro, há o risco real de nem chegar ao segundo turno.

– Agenda liberal x agenda de costumes – em larga medida, o titular do Planalto foi eleito em função de sua agenda econômica, de corte liberal e privatizante. No entanto, ao longo do governo, Bolsonaro fortaleceu a agenda de costumes, bem ao gosto dos seguidores mais fiéis, deixando em terceiro plano a pauta econômica. Esse embate terá um novo round em breve.

Ganha corpo no Congresso Nacional o debate sobre a liberação dos jogos de apostas no Brasil. As propostas em debate, em tese, contam com a simpatia da equipe econômica, e também com o apoio explícito do Centrão. No entanto, os evangélicos são visceralmente contrários e já se mobilizam para derrubar qualquer projeto. Como Bolsonaro mediará a questão? Detalhe importante – o senador Flávio Bolsonaro (Patriota/RJ) é dos principais articuladores da proposta.




– O próximo partido – o presidente da República precisa definir até março o partido ao qual se filiará, caso queira disputar o pleito de 2022. Após muitas portas fechadas, restam duas opções a ele, o PTB e o PP, com ligeira vantagem para esse último.

Há problemas para o fechamento dessa equação, porém. O partido de Ciro Nogueira e Arthur Lira está dividido quanto ao apoio a Bolsonaro, e tê-lo em suas fileiras, para setores da legenda, é algo impensável. Além disso, como fará o PP em um eventual rompimento com o governo, tendo Bolsonaro filiado? O tempo corre contra o presidente.

– Considerações finais – problemas não faltam ao governo, e nem abordamos aqui as crises econômica, social e energética. O presidente segue isolado, reduzindo paulatinamente seus recursos políticos. Abdicar da disputa à reeleição passa a ser uma hipótese plausível, já no radar do mundo político.