Bolsonarismo sem Bolsonaro?

Bolsonarismo sem Bolsonaro?

Bolsonaristas criticaram duramente o mandatário, mas afirmavam que seguiriam na defesa de sua agenda

Texto de André César

A crescente e consistente corrosão do capital político do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem gerado inúmeras análises. Um ponto importante, ainda pouco explorado, diz respeito à própria corrente ideológica do titular do Planalto – existiria um bolsonarismo mesmo sem Bolsonaro?

Mesmo antes da campanha eleitoral de 2018 já se captava, em setores nada desprezíveis da sociedade brasileira, uma emergente agenda conservadora. Retornando um pouco no tempo, as manifestações de junho de 2013 e o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) são marcos importantes nesse processo, que desaguou em Bolsonaro.



A agenda conservadora ora em curso representa um retrocesso em relação às conquistas da sociedade brasileira desde a Constituição de 1988. Ela inclui, por exemplo, a defesa do armamentismo da população, a redução de direitos trabalhistas, um Estado mais enxuto (menos atuante), o desmonte de políticas sociais, o desprezo às minorias e o fortalecimento da família e de valores religiosos.

As recentes manifestações de 7 de setembro trouxeram à luz, sem qualquer tipo de retoque, essa agenda. Setores da classe média, sob a orientação de empresários, pastores, caminhoneiros e militares de baixa patente, saíram às ruas para mostrar sua força. O atual mandatário é apenas a síntese de tudo isso.

Nos Estados Unidos da América, a derrota eleitoral de Donald Trump não significou o fim de sua corrente político-ideológica. Muito pelo contrário, o Trumpismo, no qual o Bolsonarismo se espelha, ganhou força no Partido Republicano e estará presente na sucessão presidencial de 2024, com Trump ou outro candidato. O movimento tem vida própria.



O mesmo se dá no Brasil. O bolsonarismo, hoje, é maior que Bolsonaro. Isso ficou claro nas reações de apoiadores do presidente após à divulgação da “declaração à nação”, na qual o titular do Planalto recuava dos ataques às instituições. Nas redes sociais, bolsonaristas criticaram duramente o mandatário, mas afirmavam que seguiriam na defesa de sua agenda, talvez com outro nome à frente do projeto.

Bolsonaro, assim, é apenas uma peça (importante, claro) em uma engrenagem há tempos em funcionamento. Sua eventual saída de cena, via impeachment, renúncia ou derrota nas urnas, não significará a definitiva retirada de cena de sua corrente político-ideológica. O Bolsonarismo continuará entre nós.