Crise, pandemia e o aumento da pobreza entre os brasileiros

Crise, pandemia e o aumento da pobreza entre os brasileiros

Na metade mais pobre, esta perda de renda é de -21,5%, configurando aumento da desigualdade

A pandemia da Covid-19 pegou o mundo de surpresa e trouxe consigo não só um grande problema sanitário como também econômico. Com o dinheiro deixando de circular pelas restrições, falência de estabelecimentos e desemprego, o vírus se tornou não só uma ameaça para saúde pública, mas também para ampliação da desigualdade social.

No Brasil, segundo pesquisa da FGV Social, a renda individual média do brasileiro incluindo informais, desempregados e inativos se encontra hoje -9,4% abaixo do nível do final de 2019. Na metade mais pobre, esta perda de renda é de -21,5%, configurando aumento da desigualdade entre a base e a totalidade da distribuição.



Em relação aos mais favorecidos, a queda de renda entre os 10% mais ricos foi de -7,16%, menos de 1/3 da queda de renda observada na metade mais pobre.

Os principais perdedores foram os moradores da região Nordeste (-11,4% de perda de renda contra -8,86% do Sul); as mulheres que tiveram jornada dupla de cuidado das crianças em casa (-10,35% de perda contra -8,4% dos homens) e os idosos, por terem que se retirar do mercado pela sua maior fragilidade em relação ao vírus (-14,2%).

A Sputnik Brasil entrevistou Marcelo Neri, diretor da FGV Social, para entender melhor os efeitos pandêmicos na economia brasileira, principalmente na parcela da população mais desassistida.

Neri explica que, sobre a queda de renda evidenciada na parcela pobre (-21,5%), um total de 11,5%, corresponde ao aumento do desemprego, ou seja, a maior parte.



Mecanicamente, quando aumentou o desemprego e caiu o salário, que são os componentes da renda do trabalho, a renda dos mais pobres caiu. […] Essas são as causas imediatas: desemprego, desalento, mas há algo por trás também, que está atingindo outros países, que é o combo da inflação alta e do desemprego alto”, disse o especialista.

O diretor salienta que a inflação entre a classe mais humilde está três pontos acima da inflação nas classes mais favorecidas, uma vez que “itens como alimentos, gás, gasolina pesam com maior ênfase no orçamento dos mais pobres”.

Outro ponto observado, é que o desemprego entre os mais desfavorecidos saltou de 26 para 35%.



“Está estagflação está impregnando o Brasil e, especialmente, a classe de renda mais baixa. É uma situação com difícil saída porque normalmente quando temos inflação alta o desemprego está baixo, a economia está aquecida. Porém, esse cenário da inflação e desemprego altos, e para combater a inflação a gente precisa desaquecer a economia, é como se tivéssemos que piorar o desemprego”.

“Estamos dentro de uma ‘tempestade perfeita‘ por diversos motivos: primeiro por questões climáticas, estamos na pior seca em muitos anos e isso está tendo impacto no preço da energia […], a própria pandemia é um choque de oferta porque as pessoas não podem trabalhar, assim como algumas cadeias de produção que estão rompidas e enfrentando dificuldades, além disso, a incerteza do mercado pelo contexto político do Brasil”.