Uma foto, um país

Uma foto, um país

Aqui cabe uma reflexão sobre a “agenda” dos manifestantes. Afinal, o que defendem os bolsonaristas?

Diz a sabedoria popular que uma imagem vale mais que mil palavras. Exageros à parte, há momentos em que a realidade é retratada à perfeição em um instantâneo. Isso ocorreu no tumultuado 7 de setembro, em Brasília.

A foto é de autoria da jornalista Sarah Teófilo e , em sua áspera crueza, mostra o Brasil real. Um tapa na cara de nossa dividida sociedade.

Em resumo, a imagem mostra um grupo de pessoas de classe média caminhando em direção à manifestação favorável ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido), na Esplanada dos Ministérios. Vestidos com as cores da bandeira e carregando cartazes com a foto do presidente da República, eles ignoram a presença de uma outra pessoa, em situação de rua, dormindo sob o sol inclemente da capital federal. A brutal desigualdade social brasileira exposta ao mundo, sem retoques.



Aqui cabe uma reflexão sobre a “agenda” dos manifestantes. Afinal, o que defendem os bolsonaristas? Apenas temas caros ao discurso do titular do Planalto, como o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, intervenção militar e a “criminalização do comunismo” – sabe-se lá o que isso significa. O fato é que se trata de uma pauta absolutamente descolada da realidade.

As verdadeiras demandas do Brasil atual são outras, e têm relação com a foto tirada pela jornalista. Combate à desigualdade e à miséria, recuperação da claudicante economia, enfrentamento da pandemia e os problemas ambientais, reinserção efetiva do país na comunidade internacional. Tudo claro e cristalino.

A inflação, em especial, é um flagelo a ser combatido. Os mais pobres não conseguem mais acompanhar a brutal aceleração dos preços, principalmente dos alimentos.



Enquanto parcela da sociedade brasileira se mantiver apoiando a retórica presidencial, o país seguirá patinando. Reformas, que reformas? Tudo pode ficar para depois. Uma doce ilusão, mas que parece estar mudando.

O 7 de setembro de 2021 pode ter sido um divisor de águas na conjuntura política brasileira. Aos olhos de muitos, o quadro tornou-se insustentável. A verdadeira “agenda Brasil” não pode esperar mais. Algo começa a se mover em Brasília.