Bolsonaro ganhou confrontos e agora uma batalha

Bolsonaro ganhou confrontos e agora uma batalha

Não há regras neste jogo, com dedo no olho e chutes acima e abaixo da cintura

Texto de Gilmar Corrêa

Há um misticismo religioso neste movimento bolsonarista concretizado a partir de domingo, com a chegada de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à Brasília. Velhinhas ou pastores citam versículos para seus celulares. Na frente do Congresso Nacional, no prédio do Supremo Tribunal Federal ou voltados para o Palácio do Planalto, pedem proteção e chegam a afirmar que “ele” é o escolhido.

O ingrediente religioso está mesmo no “mito”, que dezenas de manifestantes gritaram à espera do Messias, o Bolsonaro. Ficaram por horas, até à noite, na espera que ele descesse a rampa do Planalto. São pessoas de diferentes partes do país que vieram fazer um turismo da manifestação. Estão na capital desde sábado ou domingo. Dormem em hoteis e andam com seus carros embandeirados.

É gente ligada a vários ramos da atividade econômica e muitos policiais da ativa. É um pessoal da classe média com algum recurso financeiro, com algum diploma e simpatizantes de ditadura.



O líder disso tudo não respeita regras. É dedo no olho e chutes abaixo e acima da cintura. Bolsonaro encarna uma espécie de Antonio Conselheiro, “o peregrino”, de Canudos, ou o monge José Maria de Santo Agostinho, da quase desconhecida Guerra do Contestado. Ele gosta quando o chamam de “mito”.

Bolsonaro venceu até agora todos os confrontos. A primeira batalha ganhou quando os caminhões avançaram na segunda-feira à noite pela Esplanada.

A Polícia Militar do Distrito Federal cruzou os braços. Um vídeo mostra a tentativa solitária de um policial de trânsito para conter o bando. Sacou a arma e não havia colegas para protegê-lo. Assim como a tropa. o governador Ibaneis Rocha silenciou, talvez porque não tenha efetivamente comando sobre a corporação.

A temida tropa de choque ficou distante. Não há oficiais superiores no policiamento ostensivo. O comando das barreiras e das atividades operacionais são delegadas a primeiro ou a segundo tenentes. Pessoal inexperiente que recebe ordens pelo celular.



Com os caminhões na Esplanada, a ameaça de invadir o prédio do STF se tornou real. Basta apenas uma dessas carretas desviar de rumo e avançar sobre as barreiras de ferro montadas para separar gente. O resto você imagina.

O filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), esteve à noite com os manifestantes e foi muito festejado. É o mesmo da célebre citação, em 2018, segundo a qual basta um cabo e um soldado para invadir o Supremo

Na outra ponta do 7 de Setembro, estão os manifestantes da oposição. Aqueles que ao longo do tempo marcaram seus protestos pela bandeira da cor vermelha. A prática moldou o tempo e, pela incompetência, conseguiram entregar o verde e o amarelo para os apoiadores de Bolsonaro.

Assim, polarizamos até as cores dos movimentos políticos. De um lado, o verde e o amarelo e de outro, o vermelho. Quem usa a camisa da seleção já é Bolsonaro, mesmo que não queira. E quem pendurar uma fita vermelha no chapéu, virou Lula da Silva.

Não há racionalidade nestes movimentos. Os discursos são rasos, assim como suas teses. Há, isso sim, um exercício do extremismo. Ninguém sabe onde isso vai dar, mas já podemos apontar muitos culpados que cochilaram nessa caminhada para o combate.