Pobreza mundial

Inteligência artificial para condenar pobres à eterna miséria

A agregação da inteligência artificial terá será bastante desigual entre países, entre setores e até entre empresas

Texto de Charles Machado

Enquanto aqui no Brasil nosso mandatário descobre que nossos problemas decorrem da impressora na urna, do ICMS dos combustíveis e da necessidade de um impeachment para alguns ministros do Supremo, o mundo avança a passos largos na implantação transversal para da inteligência artificial para as empresas e governos dos países que lideram essa corrida, notadamente China e EUA que em breve ganham um novo parceiro nessa maratona, a Índia.

Para se ter uma ideia da importância dessa discussão aprofundada, e dos passos firmes na política de Estado para incorporação, regramento e absorção escalonada das mudanças provocadas pelas novas tecnologias (5G, Aprendizado de Máquina, Internet da Coisas e Inteligência Artificial), em setembro de 2018, o McKinsey Global Institute publicou um estudo abrangente sobre o impacto da inteligência artificial na economia e nas organizações.

Entre as principais conclusões, apontou que a inteligência artificial agregará cerca de US$ 13 trilhões (ou cerca de 15%) ao PIB mundial até 2030, trazendo parte do tão aguardado aumento de produtividade mundial, estagnada há anos.



Ao mesmo temo, o estudo mostrou que essa agregação de valor será bastante desigual entre países, entre setores e até entre empresas de um mesmo setor, uma resultante do impacto que a velocidade de adoção da inteligência artificial tem em sua geração de valor. Lembro que a adoção de tecnologia de forma transversal significa aplicar a inteligência artificial em efetivamente todas as unidades de negócios, áreas, departamentos e setores para de fato conseguir extrair os benefícios de sua incrível capacidade de automação e otimização de pequenas tarefas, que, quando concatenadas, fazem a diferença e efetivamente criam vantagem competitiva.

Porém, o mesmo estudo indica que, os followers, as empresas que mergulharem tardiamente na adoção da tecnologia, experimentarão um período de desencaixe levemente mais longo do que os front-runners(primeiros da fila na adoção da I.A.), terão benefícios drasticamente menores, logo tempo e força(direção) são os principais fatores nessa transformação que vivenciamos em nossa história.

Neste momento, mais de 85% das empresas chinesas são atores ativos no campo das aplicações de inteligência artificial em seu campo de atuação, em comparação com 51% das empresas norte-americanas, que é justamente o segundo país no ranking mundial.

Tudo se desenha para uma participação onipresente da China no pleno uso da IA, o que por certo deve desigualar por inteiro o que convencionamos chamar de indústria 4.0. Se décadas atrás eram competitivos pela mão de obra barata, essa característica ficou no passado. E hoje o que vemos é o elevado nível tecnológico da indústria chinesa, que ganha o mercado mundial pela escala e, agora, pela transformação digital do tecido produtivo do país.



O desafio presente para os chineses é o mesmo para países como o Brasil, a Índia ou o México. Porém, no caso chinês, mais do que referência, a velocidade e a escala inspiram reflexões, e quem sabe cuidados. Pois, como numa velha canção, toda transformação se sustenta no processo educacional, um desafio que é igual para todas as nações.

Para nós, brasileiros, qual parte nos caberia? Bem, o para América Latina inteira ficaria com US$ 0,5 trilhão, ou seja, 3% da geração total de valor advinda da Inteligência Artificial.

E assim distantes desse ideário, seguimos focados em nossas comodities enquanto o preço delas dispara como fruto do aumento do consumo pelos asiáticos (China, Índia, Malásia, Indonésia), que aliado a cotação do dólar, reflexo da confiança do mundo no nosso presidente, criando como resultante um lugar privilegiado na fila da miséria que bate na porta de milhões de desempregados ou ocupados por subempregos.

(Charles Machado é advogado e consultor com atuação em São Paulo e Florianópolis)