Pensando o recesso parlamentar

Pensando o recesso parlamentar

A interrupção dos trabalhos pode dar espaço para uma arrumação no Planalto

Texto de André César

Por diferentes razões, o atual recesso parlamentar, que se estenderá até o final da próxima semana, interessa tanto ao governo quanto às oposições – no plural mesmo. A depender dos movimentos que ocorrerão a curto prazo, os diferentes grupos políticos avançarão ou recuarão no xadrez eleitoral.

Do lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus aliados, a interrupção dos trabalhos em Brasília pode, à princípio, dar espaço para uma arrumação no Planalto. Como se sabe, há muito ruído interno no governo, com diferentes setores disputando espaço. Esse movimento pode comportar inclusive uma mudança ministerial, com o ingresso de um senador no primeiro escalão – essa hipótese ganha força a cada dia que passa.

O recesso também ajudará Bolsonaro no processo de sanção da Lei de Diretrizes Orçamentárias, recém-aprovada pelo Congresso Nacional. O ponto mais delicado da matéria, o turbinado Fundo Eleitoral, tornou-se um problema para o titular do Planalto – caso o texto seja sancionado na íntegra, o presidente desagradará seus eleitores mais fiéis; vetando, abrirá nova frente de conflito com o Centrão. Uma escolha difícil para Bolsonaro.



Ainda na seara governista, os aliados ganham tempo para respirar na CPI da Covid do Senado Federal. A suspensão de audiências, por ora, estanca a sangria do presidente. Um breve descanso, que acabará já nos primeiros dias de agosto.

No campo das oposições, os grupos mais à esquerda, capitaneados pelo PT, trabalharão para reforçar o nome do ex-presidente Lula, hoje favorito na disputa sucessória. Aos poucos, o petista irá se colocando ao lado das manifestações pelo afastamento de Bolsonaro, em um processo sem volta.

A chamada “terceira via”, por sua vez, ganha condições de mergulhar com mais empenho na busca por um nome forte para representar o grupo na disputa eleitoral. Nomes como o do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), hoje mais envolvidos com a CPI da Covid, se dedicarão ao debate sucessório. Alguma novidade poderá sair dessa mobilização.

Por falar em CPI da Covid, o comando do colegiado não interromperá os trabalhos de investigação. Mesmo sem audiências públicas, os senadores, ao lado de assessores, estudarão os documentos que já têm em mãos, muitos deles com potencial de causar grandes danos ao Planalto. “Vazamentos” para a imprensa não causarão espanto.

Enfim, não se pode falar em “silêncio do recesso”. O mundo da política segue trabalhando, particularmente nos bastidores.