A poesiaterapia de Kakay e a ansiedade de milhões de brasileiros

A poesiaterapia de Kakay e a ansiedade de milhões de brasileiros

A maior parte dos brasileiros busca formas de acalmar a ansiedade gerada pela pandemia

Texto de Isadora Lira

O advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, tem uma das rotinas mais intensas entre os operadores do Direito. Já chegou a suspender a comemoração de uma festa de aniversário em Lisboa e voar até Brasília somente para fazer a defesa presencial de um cliente. Figurões da República estão no rol daqueles atendidos por seu escritório . O vai e vem de Kakay, no entanto, como o de milhões de pessoas ao redor do mundo, teve que dar um tempo por causa da pandemia.

Numa conversa que tive com ele, durante sua passagem na semana passada pelo México, o advogado revelou que, assim como a maior parte dos brasileiros, vem buscando forma de acalmar a ansiedade gerada pela pandemia. Kakay estava a caminho dos Estados Unidos para vacinar os filhos e disse que encontrou na poesia uma forma de enfrentar o drama do isolamento social.

De acordo com um levantamento realizado pela Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, que contou com mais de 13 mil depoimentos, o Brasil está no topo do ranking mundial de países com maior número de casos de ansiedade e depressão em tempos de pandemia. Na época que os depoimentos foram colhidos (abril de 2021), dos 1.500 brasileiros analisados acima de 18 anos mais de 63% apresentaram sinais de ansiedade.

Causas como insegurança governamental, desestrutura na área da saúde e crises econômicas são as mais citadas como as principais responsáveis pelo aumento de mais de 34% na demanda da ala psicológica e psiquiátrica apenas no SUS (Sistema Único de Saúde). Alguns centros hospitalares relatam um equivalente de 350 consultas por dia desde o início do isolamento social.



Médicos da área se mostram contentes com as buscas por tratamentos pois destacam a importância de levar tais doenças a sério e indicam como combater a ansiedade no dia a dia e a principal dica sempre é cultivar hábitos que acalmam, como fazer o que gosta, conversar com pessoas queridas e buscar ocupas a mente com livros, músicas e hobbies.

“A poesia realmente foi uma companheira enorme nesse momento. Acho que sem a poesia teria sido um pouco mais difícil. […] A poesia é uma pá para recolher meus escombros.” Assim declamou Kakay, ao detalhar como ele vem lidando com os dias de ansiedade. Com um livro prestes a ser lançado, contendo seus artigos publicados durante a pandemia, Kakay conta que escreve diariamente, sempre no final da tarde, e compartilha suas poesias com mais de 600 pessoas. Acredita que leva até elas momentos de calmaria e esperança.

Desde o início do isolamento social, grandes universidades como Harvard, Yale, FGV, USP e entre outras vem liberando cursos gratuitos no formato online e em diversas áreas, como um incentivo para manter as pessoas em casa, respeitando as normas sanitárias da OMS (organização mundial de saúde), e com suas mentes ocupadas.

O livro “Vencendo a Ansiedade e a Preocupação com a Terapia Cognitivo-Comportamental”, de David A. Clark e Aaron T. Beck, serve como um manual que conduz o leitor a estratégias para identificar e vencer com segurança os gatilhos que despertam a angústia, ansiedade e medo.

Acredito que a palavra-chave deste texto deveria ser “crise”. Uma simples palavra de origem grega que é utilizada em diversas áreas do conhecimento e que apesar de despertar medo e insegurança, possui em sua essência a ideia de um começo, meio e fim. Todas as crises, das mais calmas como ondas do mar até as mais assustadoras como grandes tsunamis apresentaram um fim. Um momento onde tudo se acalmou.

O nosso papel nessa crise é cuidarmos uns dos outros e depositar esperança na ideia de fim de crise e um futuro quando o coronavírus estará apenas em livros.