Brincando de detetive

Brincando de detetive

Uma relação inspirada em jogo da década de 1980 é uma triste alegoria do momento

Texto de Vivaldo de Sousa

Sete amigos se reuniram para brincarem de detetive, um antigo jogo de tabuleiro. Mas, na nessa versão, ao invés de procurarem o assassino de Carlos Fortuna, eles precisam descobrir o responsável pela morte de mais de centenas de milhares de pessoas na Ilha de Vera Cruz. Segundo informações do jogo, as pessoas morreram por não terem tido acesso no tempo adequado às vacinas para se imunizarem contra um novo vírus.

Escolhida por sorteio para iniciar a partida, Simonete joga os dados, anda algumas casas e retira a primeira carta. “Foi o general Bolinha no Escritório Central da Saúde, com a caneta”, afirma ela, ao dar seu primeiro palpite, sem conseguir descobrir o responsável pela demora na aquisição das vacinas que poderiam ter salvado milhares de vida.

Renildo, segundo do grupo a jogar, também dá seu palpite: “Acho que foi o coronel White, no shopping e com a faca”, afirma. “Não, não foi o coronel”, responde Oscar, escolhido pelos demais jogadores para confirmar, a partir das cartas inicialmente selecionadas, se o palpite dos demais jogadores estava correto.

“Então foi a Dona Régia, na Esplanada dos Mistérios, com um computador”, arriscou o médico Berto. “Não foi a Dona Régia, nem na Esplanada dos Mistérios e nem com um computador”, respondeu novamente Oscar, lembrando que nenhum dos jogadores havia acertado o responsável, nem o local e nem a arma até o momento.


Depois de jogar os dados e retirar sua carta, Luiz Eduardo também dá seu palpite: “Foi a Dona Violeta, no aeroporto, com o martelo”, afirmou ele, argumentando que não houve atraso na compra das vacinas, mas sim na entrega por parte dos fornecedores. “Não foi ela. O local não é o aeroporto e não foi com o martelo”, responde Oscar.

“Tenho certeza de que foi o Professor Red no estádio e com a bola”, afirmou Jorginho, depois de jogar e retirar sua carta. “Seu palpite também está errado”, respondeu Oscar. Próximo a jogar, Ciniro, que é advogado, dá seu palpite: “Foi doutor Bigode, com o revólver e no hospital”.

“A arma está correta, mas o autor não é o doutor Bigode e não foi no hospital”, responde Oscar. Último jogador da primeira rodada, o professor Rudolfo, já sabendo a arma usada, dá seu palpite: “Acho que foi o capitão Corona, com o revólver, na biblioteca”. “Você acertou o autor. Como já temos a arma, falta descobrir agora o local”, diz Oscar, antes de iniciar a próxima rodada do jogo.

Inspirada no jogo de tabuleiro Detetive, popular entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, a história acima é uma triste alegoria do momento em vivemos hoje, onde a pandemia da Covid-19 já tirou a vida de mais de 525 mil pessoas. Assim como no jogo, na vida real também é importante descobrir os responsáveis por essa tragédia.