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A polarização que reduz a política externa brasileira

As alianças têm sido firmadas com potências tradicionais que, além de investirem no país, abrem seus mercados para o produto brasileiro
Itamaraty
Chefia do Itamaraty tem uma relação estreita com o presidente Trump/Arquivo/Divulgação

Texto de Marcelo Rech

Poucas vezes, a política externa brasileira esteve tão presente no debate nacional como na atualidade. E há razões boas para comemorar e outras nem tanto. Durante muitas décadas, acreditou-se que política externa era algo reservado para o mundo da diplomacia e dos diplomatas, um tema cercado de glamour, ostentação e arrogância calculada.

Nos últimos 20 anos, a política externa passou por uma transformação enorme. Tivemos a ousadia de pôr fim ao monopólio do Itamaraty, no caso brasileiro, às discussões sobre a agenda internacional. A internacionalização das empresas, elemento cada vez mais determinante para o êxito dos negócios em meio à globalização, exigiu das grandes, medias e pequenas corporações, uma verdadeira compreensão da dimensão das relações internacionais.

Antigamente, uma empresa dependia do Estado, através do Ministério das Relações Exteriores, para abrir uma negociação e fechá-la. Hoje, essas negociações dão-se à distância, por meios tecnológicos e em pouquíssimo tempo. No entanto, o sucesso ainda está vinculado diretamente ao melhor entendimento do jogo geopolítico mundial.

Um exemplo? No final dos anos 1990, uma grande empresa frigorífica brasileira descobriu que se abatesse aves seguindo os preceitos islâmicos, seria possível abrir mercado no Oriente Médio. Atualmente, o Brasil é um dos mais importantes exportadores de proteína animal para aquela região, incluindo Israel, países árabes e o Irã, persa.

Portanto, abrir-se à compreensão das diferenças é fundamental. Não apenas para conquistarmos mercados, mas para nos posicionarmos como protagonistas das decisões que impactam a humanidade. Não será pela simples pressão de ser um dos maiores e mais populosos países do planeta, que lograremos um lugar neste clube restrito.

Tampouco, será por laços de amizade efêmera, que tornaremos nossa posição respeitada e nossa voz ouvida. O xadrez internacional cobra engajamento constante, cálculos permanentes e coerência, ainda que seja marcado, também, por alianças improváveis, jogo sujo e alinhamentos convenientes.

O Brasil tem ganhado espaços cada vez maiores nos principais veículos de comunicação internacionais e, em grande medida, parte de uma estratégia que visa desgastar a imagem do país a ponto de abocanhar-lhe mercados duramente conquistados. E, neste processo, diferentes atores estrangeiros contam com a cumplicidade de nacionais mais preocupados com interesses políticos pessoais.

É aí que o debate sobre a Política Externa Brasileira se reduz. Opositores a usam como elemento para fragilizar, especialmente, muitas das iniciativas que beneficiam os trabalhadores que juram defender. Não é o governo brasileiro que está sendo colocado em maus lençóis, mas o produtor e o produto nacional.

Até recentemente, estávamos associados à países antidemocráticos para os quais o erário entregou bilhões, inclusive por meio de contratos que permitiam o retorno de parte do dinheiro para abastecer campanhas políticas dos detentores do poder. Hoje, as alianças têm sido firmadas com potências tradicionais que, além de investirem no país, abrem seus mercados para o produto brasileiro.

A isso, muitos têm chamado alinhamento, dando ao termo uma carga pejorativa que busca apenas e tão somente, deslegitimar avanços que estão sendo tangíveis. Vejamos um exemplo objetivo: o Brasil colocou as suas relações com Israel em um outro patamar, com benefícios comerciais, econômicos, e científico-tecnológicos. E, contra todas as pregações, fortaleceu suas relações com os países árabes. Uma ação que não anulou a outra. Estamos negociando temas delicados com os Estados Unidos, sem abandonar a China, principal parceiro comercial. Condenamos o regime venezuelano, sem, com isso, criarmos abalos com aqueles que o defendem (sabe-se lá por quê razão) e não apoiamos, por exemplo, nenhum tipo de intervenção estrangeira no país vizinho.

Tudo isso, solenemente ignorado por aqueles que pretendem tornar o suposto isolamento internacional do Brasil, numa verdade, custe o que custar, inclusive com danos concretos para a nossa economia e desenvolvimento.

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