Pai e filho

Você já foi criança?

Texto de Elisa Leão

Até parece que você nunca quis muito um picolé ou um jogo ou uma boneca ao ponto de insistir ou achar que foi vítima de injustiça por não ter alcançado seu objetivo.

E na época de decorar a tabuada? Aqueles números pareciam impossíveis e a impressão era que todo mundo aprenderia, menos você!!

Lembra de sentir uma vergonha profunda por não ter saído com o pessoal da escola que tinham combinado de ir de bike lá pra pracinha?

Essas e outras situações podem ser repetição de uma realidade que todos, que estão vivos e chegaram a vida adulta, viveram. É preciso ser criança e adolescente para ser adulto.

Lembra? Você também vivenciou essas etapas. Lembrar-se disso é um grande passo para conectar-se melhor com os filhos. Vejo que, em algumas situações, o desejo de acertar ou a responsabilidade pelos filhos é tão grande que é difícil conseguir flexibilizar. Fica difícil dar risadas juntos porque isso pode tirar a autoridade.

Posso afirmar uma coisa: dar risadas com os filhos ou ajudá-los a resolver uma situação com os amigos, pode aproximar essas duas gerações.

Os pais são guias dos seus filhos. Guias responsáveis por apresentar respeito, autoestima, educação, maturidade, limites e felicidade. Sempre digo que ter filhos é viver se educando para conseguir educar a criança. Ensinar autocontrole é saber controlar as próprias emoções e não ficar gritando em situações de tensão. Como alguém pode aprender sobre respeito se é desrespeitado pelos próprios pais?

Ensinar que é possível superar adversidades é, principalmente, mostrar que em tempos difíceis é possível buscar racionalidade e estratégias pensando nas alternativas. Assim, as crianças e os adolescentes terão acesso a processos de flexibilidade, segurança, resiliência.

Quero deixar claro que é importante ensinar e solicitar tarefas. Dar responsabilidades domésticas, mostrar que existem situações que deverão ser resolvidas por eles e valorizar as atividades escolares, ensina independência e compromisso com a própria vida. Ou seja, ter autoridade é assumir o lugar de Pai, de Mãe, de guias. Ter medo dessa autoridade pode interferir na própria segurança e mostrar insegurança para os filhos. Não que os pais não possam ser vulneráveis em alguns momentos. São humanos. Mas estão no papel de Pais e precisam se apropriar da autoridade, que é diferente de autoritarismo.

A conexão do olho no olho e da possibilidade de ser empático o suficiente para desenvolver uma verdadeira relação de respeito aproxima Pais e Filhos.

E lembrar de que um dia você já foi criança pode te ajudar a melhor compreender e se educar e, consequentemente, melhor educar e estar com os filhos. O que é um investimento a curto, médio e longo prazo.

(Elisa Leão é professora doutora de Psicologia da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília e psicóloga clínica)