Uso do gel

O isolamento social da hipocrisia

Convenhamos, o isolamento social é realmente para poucos. Sejamos honestos. Vejo em redes sociais artistas milionários fazendo cartazes bonitinhos, vídeos mostrando como passam o tempo enquanto seu dinheiro está rendendo a 80% em alguma corretora de valores. Quem pode ficar sem trabalhar é o funcionário público, o grande empresário, o artista rico. Pessoas que vivem de seu salário e trabalham na iniciativa privada, médios, pequenos e microempreendedores dependem do movimento contínuo de seus negócios ou de onde trabalham.

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Há outro aspecto interessante: os mesmos que vão às redes sociais dar lição de moral e exigir que fiquem todos em casa contam com o supermercado aberto, querem pizza, sushi, China in Box e sanduíche delivery, farmácias abertas, porteiros e vigias trabalhando dia e noite em seus condomínios. Não hesitam em combinar “esquemas” com empregada doméstica e faxineira (contanto que não deixem de ir), querem transporte público funcionando para a faxineira, o porteiro, a empregada doméstica, o gari, o vigia, o frentista, o bancário poderem ir trabalhar, imprensados, logo cedo pela manhã, e os servirem, pois estão socialmente isolados.

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Sim, estão em casa, mas eventualmente querem drive thru no fast food, precisam da emergência do hospital particular funcionando, dos correios para suas e-compras chegarem, da loja de conveniências aberta, do posto de gasolina, do banco 24 horas, da TV a cabo – e se der algum problema, será necessário que alguém no call center os atenda e um técnico vá às suas casas para resolver a pane. Os isolados não vivem sem Netflix, precisam de polícia nas ruas, garis varrendo as calçadas e recolhendo seu lixo, pet shops para dar banho em seus cachorrinhos, dentistas se por acaso lhes acomete dor de dente.

E todos os serviços que eu citei necessitam de uma gama de outros serviços inumeráveis, de insumos que carecem de transporte rodoviário, que por sua vez reclamam serviços de borracheiros de beira de estrada, postos de gasolina, restaurantes, além de portos, aeroportos, agropecuária, comércio etc. Nisso está o grosso da geração de empregos no Brasil.

A economia é o estudo da própria vida individual e o resultado desses comportamentos agregados em sociedade, formando redes de dependência. Os mais abastados podem dizer que se isolaram socialmente porque sabem que têm vários serviços à disposição, com gente trabalhando, saindo de casa para servi-los, usando transporte público e sem opção para se isolar. Ser seletivo nesse esquema é agir de modo irresponsável: por que alguns podem se isolar e não outros? Porque o critério usado atualmente é, por incrível que pareça, o econômico. Os mais ricos escolhem se isolar, mas aos mais pobres lhes é imposto o isolamento ou então têm que trabalhar para manter uma rede mínima de serviços para os que voluntariamente se isolaram. Esses critérios estão errados.

A seletividade não deve ser de base econômica, mas social: os mais idosos, os que têm mais de dois problemas de saúde combinados, mulheres grávidas, recém-nascidos. Temos uma escolha de Sofia para fazer: a curto prazo, a maioria para de trabalhar e se fecha em casa, perde emprego, paralisa a economia, quebra o país, deixa de gerar renda. A longo prazo – e não sabemos se isso realmente vai barrar a expansão do vírus – temos a certeza de que o “isolamento social” vai gerar miséria, fome, desemprego, desindustrialização, desaquecimento da economia. Os isolados socialmente, a cada cartaz, a cada pedido de “fique em casa”, me cheiram a hipocrisia.

Por fim, há uma terceira via: todos voltam às suas atividades cotidianas, mas tomando as devidas precauções, mantendo afastamento, evitando aglomerações, lavando as mãos com água e sabão mais que o habitual, sabendo que já há medicamentos em teste com relativo sucesso para os que inevitavelmente contraírem o vírus. Já houve inúmeros, incontáveis casos de cura, sobretudo em pessoas abaixo de 60 anos. É preciso que o bom senso fale mais alto, a histeria silencie e a hipocrisia se cale, porque o que está em jogo é o Brasil.