Bolsonaro coraçãozinho

“Ela queria dar o furo às minhas custas”

A jornalista queria publicar um furo de reportagem às custas da cabeça do presidente. Certo ou errado?

Eu entendi dessa forma. Você, não? Como assim?

Wittgenstein, com seu jogo da linguagem e a constatação de que os sentidos mudam segundo a interpretação de cada interlocutor, a situação e o que se deseja ao “dizer” determinada sentença, explica. A Pragmática explica. Porque a linguagem não é um jogo fechado de mão única, de sentidos unilaterais. Você entendeu o que quis, o presidente disse o que disse.

De acordo com a Máxima do Modo, de Grice, uma das quatro do Princípio da Cooperação, o presidente teria sido ambíguo ou obscuro no uso da expressão “dar o furo”. A Máxima do Modo, dessa forma violada, diz: evite a obscuridade; evite a ambiguidade; seja breve; seja ordenado.

É esse o ponto central da discussão. Cabe ao interlocutor receber a mensagem e atribuir-lhe os sentidos possíveis e cabíveis, segundo suas experiências, bagagens de leitura e intencionalidade. A Análise de discurso de linha francesa chega a dizer que não lemos um texto, mas “somos lidos” por ele, pois cada texto passa em revista nossas experiências, nossa bagagem cultural, nosso acúmulo de leitura…

Conhecendo as Máximas de Grice, podemos chegar às implicaturas conversacionais. Ou seja: são processos dedutivos que se tornam previsíveis. Que sentido é adequado conferir à fala do presidente da República? Ou que sentido o interlocutor acredita que deve atribuir à fala do presidente? É essa a pergunta a ser feita. A leitura não é a da “mente do presidente”, que adivinhe que sua fala foi jocosa ou não, mas a da recepção do interlocutor.

Não é bem minha intenção falar da Teoria da Recepção, mas na literatura fala-se muito, hoje, do fato de que “o texto literário ou artístico é criado não pelo artista, mas na relação estabelecida entre o objeto e o receptor ou leitor” (Fonte: Wikipedia. Há controvérsias, pois essa ideia pode relativizar a própria criação literária).

De certa forma, assim também é concebido o discurso, na Pragmática e em seus estudos, nos atos de fala, nas implicaturas conversacionais, no Princípio da Cooperação de Grice e suas Máximas etc.

Não é possível determinar que o presidente “ofendeu” a jornalista, pois, apesar de sua fala ter transgredindo a Máxima do Modo, cabe ao interlocutor a palavra final acerca do significado atribuído à expressão “dar o furo“. Lembre-se de que o sentido é atribuído pelo leitor, pelo ouvinte, pelo interlocutor. Como dizem os mais velhos: a maldade está nos olhos de quem vê. Ainda que o enunciado seja ambíguo, deixa-se ao locutor o benefício da dúvida, mas, ao interlocutor, o ônus da interpretação.