A origem do modelo de milícias

autor Misto Brasília

Postado em 05/08/2018 08:15:15 - 07:59:00


As milícias que dominam parte da periferia do Rio tem como pano de fundo a ditadura/Arquivo

Incorporação de grupos de extermínio à estrutura do Estado seria um legado do regime militar

Os últimos anos testemunharam um acelerado crescimento das milícias no Rio de Janeiro: elas expandiram seu rol de atividades econômicas e se fortaleceram politicamente. Esse fenômeno está sendo gestado há décadas, afirma o sociólogo José Cláudio Alves, pesquisador da atuação de grupos paramilitares e professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Em entrevista à DW Brasil, ele diz que a incorporação de grupos de extermínio à estrutura do Estado é um legado do regime militar, mais especificamente dos esquadrões da morte – grupos compostos por policiais que, à margem da lei, torturavam e executavam pessoas que considerassem suspeitas nas periferias de Rio de Janeiro e São Paulo.

Alves aponta a incapacidade do regime democrático de superar esse legado. "Pelo contrário, é como se você tivesse saído do aquário do regime militar e entrado no oceano da democracia", afirma. "A estrutura militarizada da polícia é que permite sua transformação nisso que é hoje. Não há qualquer controle social ou jurídico sobre ela.

“As formas de poder que se perpetuaram no Brasil desde que ele se constituiu são calcadas na desigualdade e na segregação de grupos sem acesso à segurança, um dos bens mais preciosos e caros desse país. Foi construído um totalitarismo socialmente reconhecido, como são os esquadrões da morte. Os grupos dominantes se valem dessa estrutura sanguinária para se perpetuarem, eliminar seus inimigos e silenciar qualquer reação. Assim, submetem grandes conjuntos da população ao medo e ao silêncio”.

“A ditadura civil-militar foi capaz de organizar essa estrutura muito próxima dos moldes que temos hoje nas milícias. No início da organização da economia política do crime organizado, o regime cumpriu o papel de projetar esses grupos, fortalecê-los, mostrar a viabilidade deles e a eficiência que eles têm no papel de controle político, econômico e social. A ditadura foi a grande idealizadora de um modelo que foi evoluindo até chegar aos nossos dias, em que temos as milícias”

“A operação dos grupos de extermínio nessa dimensão mais ampla, na lógica do "bandido bom é bandido morto", só ocorre mesmo com a formação dos esquadrões da morte, no fim dos anos 1960”.

“Nesse momento, é feito todo um trabalho de propaganda. Circulam imagens de cadáveres de pessoas assassinadas com plaquinhas dizendo que eles iriam assaltar bancos, roubar. Tem início a construção de um imaginário que é o mais simples possível: se a pessoa foi morta daquela forma, é porque estava vinculada a alguma estrutura de crime, banditismo. Logo, merecia aquele destino. A vítima se transforma em réu. Os autores daquelas mortes ganham um respaldo social. Sem acesso a nenhuma forma de segurança, a população mergulha nessa lógica. De lá para cá, essa estrutura só se aprofundou”.

“O tráfico de drogas, por sua vez, constitui uma resposta para uma massa que nunca foi incorporada à economia e nem tem como ser. Esses grupos sociais veem no tráfico uma grande possibilidade de obtenção de ganhos. A lógica da execução sumária se amplia principalmente na busca da eliminação deles, mais uma vez se respaldando em grupos ilegais criminosos que vão fazer essa prática – e a própria polícia que, de um tempo para cá, adota essa lógica da execução sumária.

Nós vemos relatos de policiais mortos, mas não tem comparação com os grupos ligados ao tráfico, que são executados muito mais e em proporção muito maior, porque são os mais pobres – negros, favelizados, a massa de eliminação que mantém aquecido o mercado das drogas”. 


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