É Blumenau, mas pode ser em qualquer lugar

autor Misto Brasília

Postado em 25/05/2018 16:36:22 - 16:11:00


A opção para quem gosta de jornais impressos é ler em novas tecnologias/Arquivo/Divulgação

Os impressos também não tinham independência, mas tinham mais que jornalistas sozinhos

Texto de Viviane Roussenq

Uma cidade sem rosto desde que o Jornal de Santa Catarina agoniza em Blumenau em sua esquálida versão impressa, o jornalismo investigativo local morreu para dar lugar ao mero informe de serviço, sendo fragorosamente derrotado neste ofício pela mídia digital.

A morte anunciada do impresso é irreversível e de alcance mundial. Também é verdade que muitos grandes jornais impressos migraram para a internet. O que auxilia em muito os internautas na análise dos fatos, pois continuam grandes (financeiramente) e históricos veículos a conferir credibilidade às informações combatendo as famigeradas “fake news.”

Ainda assim, o formato digital cerceia em muito o campo investigativo, dando evidentemente a informação, mas privando o leitor internauta de nuances e detalhes que apenas o impresso sem limites de caracteres e livre do compromisso da essência visual, poderia proporcionar.

Assim caminha a humanidade. Mas prefiro me deter à Blumenau.

A versão digital do Santa é mero serviço aos leitores. Mas resiste aos fortes ventos com quatro ou cinco valentes jornalistas tocando o veículo dos novos tempos e o desenganado impresso. Blumenau fica desta forma uma cidade sem rosto, sem a tal feição local. Não há pernas para estes jornalistas buscarem notícias da cidade e farejarem histórias na rua, princípio de tudo.

Sei que colegas jornalistas me apedrejarão com o argumento de que sou uma romântica, que este tal jornalismo impresso e investigativo e portanto longo para ler é coisa do passado. Ouvi esta semana de um amigo publicitário: “Não invisto em ideias que usem o escrito. O mundo mudou, ninguém mais lê.”

Será totalmente verdade? De qualquer forma, a tal frase foi um tapa na minha cara. Blumenau, cidade em que moro e criei minhas duas filhas, amarga a ausência de histórias e, portanto, de notícias de fôlego, que não se limitem a simples informação.

No meu pensar solitário, uma Blumenau sem rosto é o presente e futuro sem direito ao registro e órfã do que me parece essencial ao jornalismo e que sumiu com o definhamento do impresso: a credibilidade para duvidar, fiscalizar, investigar e denunciar fatos que cheirem ilícitos e duvidar até mesmo daqueles que não cheirem.

E não me venham dizer que sites de jornalistas que já trabalharam na grande imprensa, inclusive impressa, suprem esta carência. Estes profissionais estão praticamente sozinhos nos projetos e dependendo de patrocínio para permanecerem no ar.

Quando a tal independência financeira é apenas utopia como achar que este jornalismo digital será forte e combativo contra o ilícito? Dirão: os impressos também não tinham independência financeira. Mas tinham mais que jornalistas sozinhos em seus sites.

Tinham vários profissionais trabalhando em áreas específicas, o que enriquecia a leitura. Tinham equipe para ir à rua, investigar, fiscalizar de forma presencial e sem nenhuma restrição levar o que encontrou para uma reunião de pauta onde um grupo de profissionais avaliava as informações e o alcance do denunciado.

A regra era denunciar e desdobrar, mesmo nos novos tempos com textos mais enxutos. Quando escuto de um colega culto que ninguém mais lê e o que importa é o visual, imagino com tristeza como será (ou já é?) pobre o conteúdo dos cursos de jornalismo.

Como poderia ser diferente se os alunos e até mesmo os professores não têm mais tempo para ler? É o visual, a figurinha soterrando a escritura, o texto. Quantas histórias deixarão de ser contadas em função do que cumpre a própria história.

 A brevidade mata o jornalismo investigativo ou pelo mesmo o amputa. A TV ainda toca na ferida, mas está longe de cumprir este papel fundamental do jornalismo. A Blumenau sem rosto deve ser igual a tantas outras cidades deste Brasil. O anonimato do que pensam os habitantes deste Blumenália, o que fazem, as ilicitudes, a fiscalização dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário como fica?

Aqui jaz uma jornalista jurássica que teve o prazer de exercer o jornalismo combativo que não serviu a nenhum interesse senão ao de informar. Pobre Blumenau de hoje, sem rosto, sem identidade, sem história a ser registrada. Pobre mundo, pobre Brasil, cujo povo não lê. Não lê?

Acho generalizada demais a frase do amigo publicitário, duvido. Como defender a educação como uma das áreas prioritárias de investimentos em um país onde ninguém mais lê? Duvido desta indagação também. E se for verdade, não seríamos nós, jornalistas, responsáveis pela difícil empreitada de atrair leitores internautas com notícias verdadeiras?

É coerente o raciocínio de que a morte do impresso auxilia a emburrecer o povo que navega nas mais diversas e rápidas informações sobre um fato, falsas ou não. A morte do impresso favorece os poderosos que em seus ilícitos e desmandos ficam extremamente mais protegidos e, portanto, impunes. Entretanto sopra um ventinho de otimismo no ar.

Não é que o tradicional diário carioca Jornal do Brasil, fundado em 1891, que desde 2010 só existia na versão digital, voltou às bancas em fevereiro deste ano? E com cadernos? Nem tudo está perdido. Parece ainda haver espaço para o papel. A mídia digital é um novo e irreversível caminho.

O mundo e o Brasil merecem o novo. Mas o novo que garanta a melhor informação a seus leitores, cabe aos jornalistas este compromisso mesmo que em exíguos caracteres. Porque os leitores exigentes e carentes de notícias – e não conteúdos-, existem.

O importante é o veículo de comunicação no ciberespaço contar com autonomia e uma redação experiente, não para levantar opinião, mas para levantar informações sobre o que os governos estão fazendo, o que a sociedade está fazendo, o que está acontecendo. É isso, no fim das contas, que sustenta a democracia. O esboço de um novo rosto para esta nova Blumenau ainda não pode e nem merece ser descartado.


AO VIVO Radio 247
AO VIVO Tropical House Radio
veja +
Coordenadora diz que grupo de trabalho não vai atrasar análise do pacote anticrime
Presidente da CCJ espera "melhora do cenário político"
Senado vai votar permissão para pais que estudam ficarem com filhos na sala de aula
veja +