Conflitos - Israel completa 70 anos

autor Misto Brasília

Postado em 14/05/2018 09:18:37 - 09:12:00


Escritor Amós Oz diz que defende dois estados há meio século/Reprodução/DW

Escritor israelense Amós Oz defende a criação também de um Estado Palestino para criar a paz

Triunfo ou catástrofe? Para os judeus, o dia 14 de maio de 1948 marca o nascimento de um Estado próprio. Fundação do país também é origem de conflitos com populações vizinhas, que se estendem por décadas.

Filho de imigrantes judeus do Leste Europeu, o escritor Amós Oz nasceu em Jerusalém no dia 4 de maio de 1939, num momento em que os horrores do Holocausto estavam começando a se desdobrar. Ele veio ao mundo nove anos antes de o Estado de Israel ser proclamado num território anteriormente conhecido como Mandato Britânico da Palestina.

Apesar de ter crescido como um "militante sionista", Oz se tornou um defensor de uma solução de dois Estados para resolver o conflito. Em meio às celebrações dos 70 anos da proclamação do Estado de Israel, a última obra de Oz, Mais de uma luz: fanatismo, fé e convivência no século 21, continua argumentando que permitir a criação de um Estado palestino é "questão de vida ou morte para o Estado de Israel".

Em entrevista à DW, o autor, responsável por 40 livros e traduzido em mais de 40 línguas, fala sobre o que significa Israel para ele.

Os pontos

Durante toda a minha infância, uma nuvem pesada, cheia de dor, desilusão e insegurança pairava sobre a minha casa, minha pequena rua, minha vizinhança, sobre a Jerusalém judaica, o Israel judaico.

Meus pais nunca dividiram comigo o amor desiludido que sentiam pela Europa. Isso não é assunto para se falar com um menininho: sobre uma Europa que você amou e que te expulsou violentamente e coberto de vergonha. Mas eu conseguia sentir a dor e as saudades. Eu conseguia até intuir que eles tentavam criar artificialmente um pequeno enclave europeu em meio ao clima quente e seco de Jerusalém. Era um mundo estranho para um menininho, cheio de segredos, cheio de censura familiar”.

“Alguns meses antes do dia 14 de maio, uma espécie de cortina de ferro dividia Jerusalém em uma cidade judaica e uma cidade árabe. Alguns habitantes árabes dos bairros judaicos se mudaram para o leste e o sul da cidade. Habitantes judeus do leste e do sul se mudaram para o norte e o oeste por temores de segurança.

Depois da guerra de 48 – a guerra de independência de Israel – Jerusalém era, fisicamente, tão dividida quanto Berlim com um muro de ferro. Campos minados, arame farpado e uma terra de ninguém. Do telhado da nossa casa, eu conseguia ver Jerusalém Oriental. Conseguia ver o Monte Scopus e os bairros árabes. Mas também conseguia ver a Lua – e as chances de eu conseguir pisar num desses locais eram as mesmas que as de pisar na Lua. Não parecia realista”.

“Tenho sentimentos mistos sobre Jerusalém. É fascinante, é linda, é trágica e extremamente atrativa para qualquer tipo de fanático ou salvador, para gente que quer melhorar o mundo, profetas autoeleitos ou messias. Isso é fascinante. Mas acredito que não conseguiria viver em meio a toda essa gente. Preciso da minha distância. Não sei o que vai acontecer em Jerusalém, mas sei o que deveria acontecer. Cada país desse mundo deveria seguir o exemplo do presidente Donald Trump e transferir sua embaixada para Jerusalém. Ao mesmo tempo, deveria haver embaixadas de países do mundo inteiro em Jerusalém Oriental como a capital da Palestina”.

“Defendo essa ideia há 50 anos e ainda a acho correta. É simples. Estamos falando de uma casa muito pequena, mais ou menos do tamanho da Dinamarca. É o único país de origem dos judeus, também é o único país de origem dos árabes palestinos.

Não podemos nos tornar uma família feliz e unida, porque não somos um, não somos felizes, não somos família. Somos duas famílias infelizes. Então, precisamos dividir a casa em dois lares menores. Não há motivo para fantasiar que, após cem anos de derramamento de sangue, de ódio e de conflitos, judeus e árabes pulem numa cama de casal e comecem a se amar em vez de se guerrear como um casal desigual”.


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