A safra de novos cineastas

autor Misto Brasília

Postado em 08/05/2018 16:45:22 - 16:35:00


Juliana Vasconcelos faz parte da nova safra de cineastas brasileiros/DW/Divulgação

O Brasil teve um recorde de 158 filmes lançados no ano passado, segundo a Agência de Cinema

Com uma produção volumosa e mais diversa, uma nova safra de cineastas brasileiros vem sendo selecionada e aplaudida em grandes festivais internacionais. É o caso de duas jovens diretoras, Beatriz Seigner e Carolina Markowicz, cujos filmes serão exibidos na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes, evento que objetiva dar visibilidade aos novos realizadores e cujas sessões ocorrem paralelamente à célebre competição francesa, que começou hoje (08).

A multiplicidade de olhares por trás das câmeras acompanha o crescimento da produção nacional como um todo, que explodiu na última década. Um termômetro são as inscrições de novos filmes no Festival de Brasília, por exemplo, que saltou de 30 para 170 entre 2007 e 2017. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o Brasil teve um recorde de 158 filmes lançados no ano passado.

Além do maior volume produzido, a descentralização e a criação de novos polos de produção fora do eixo Rio-São Paulo, bem como uma maior preocupação em incluir mais mulheres, negros e indígenas em políticas de incentivo tem mudado, aos poucos, o rosto e o sotaque do cinema brasileiro.

"Estamos vivendo o período mais diverso na produção cinematográfica brasileira", analisa o crítico de cinema Adriano Garrett, responsável pelo site especializado CineFestivais. "É uma produção vigorosa, com diversidade geográfica, de linguagem e temática, que ainda nem atingiu a maturidade, visto que muitos realizadores desta geração estão produzindo curtas e ainda não lançaram os primeiros longas-metragens", afirma.

"Faço parte de uma geração que está chegando e fazendo seu primeiro ou segundo longa. Ainda está longe do ideal, mas é bem legal participar deste momento, em que finalmente há algumas medidas para incluir no cinema mais pessoas que antes não tinham acesso", opina Markowicz, de 35 anos.

Superando obstáculos - Embora ainda esbarre em problemas como a dificuldade de financiamento, de distribuição e da pouca formação de público, o diverso grupo – cujos expoentes incluem também o pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor e Aquarius, o ex-jogador de futebol Adirley Queirós, que filmou na cidade-satélite de Ceilândia Branco Sai, Preto Fica, além dos mineiros Affonso Uchôa e João Dumans (diretores de Arábia) e Juliana Antunes (Baronesa) – tem conseguido romper barreiras e atingir boa inserção em festivais nacionais e internacionais.

Inspirado em casos reais, o curta O Órfão, de Markowicz, foi escolhido entre 1.667 inscritos e relata o drama de Jonathas, menino negro e pobre que acaba preterido nos processo de adoção por ser diferente.

Já o longa Los Silencios, dirigido por Beatriz Seigner, disputou com outros 1.609 filmes uma vaga na exibição. Nascido de mais de 80 entrevistas com famílias colombianas e filmado na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, o longa narra a jornada de Amparo, que foge do conflito armado em seu país e se abriga com os dois filhos pequenos em uma pequena ilha com casas de palafita no Rio Amazonas.

Da ideia inicial dada por uma amiga colombiana à estreia em Cannes, passou-se quase uma década, lembra Seigner. "Comecei a escrever em 2009 e mandar para editais em 2012. Mandei para 37 editais, nós ganhamos dez e perdemos 27. Com bastante persistência, acabamos conseguindo ganhar um pouco em cada edital e fechar o orçamento", explica a cineasta de 33 anos

Formação de cineastas - "A produção brasileira saiu do eixo Rio-São Paulo e se diversificou bastante em novos polos, como o de Pernambuco, o do Ceará e o de Contagem, em Minas Gerais", explica Garrett, ressaltando a importância da disseminação, nos últimos 15 anos, de cursos técnicos e universitários voltados para o audiovisual, que ajudaram a formar parte dos cineastas atuando hoje.

"Até os anos 2000, havia poucas opções para quem quisesse estudar cinema fora das capitais. E mesmo nelas as opções eram restritas, havia basicamente os cursos da Universidade de Brasília, criado em 1965, ou a USP e a FAAP, em São Paulo. Os cursos existiam, mas eram oferecidos em um número muito menor do que o atual", afirma.

Quem está assistindo a esses filmes? - O crítico de cinema Sérgio Rizzo aponta a existência de gargalos que impedem que essa nova produção nacional atinja um público maior.

"Vejo com simpatia o cinema de longa-metragem experimental, mas fico um pouco incomodado porque esses filmes circulam pouco. É um cinema de festival, que chega a poucas salas e não têm a existência que merece", afirma. "Tendemos a olhar para os filmes e reconhecer ali um talento emergente e jovem, mas quem está assistindo a esses filmes? Em geral, o mercado é dominado por superproduções", acrescenta o crítico, ressaltando que seria necessário também uma política mais robusta na formação do público.

Além dos problemas estruturais, a geração atual de cineastas convive com os temores de corte de verbas e as incertezas diante do volátil cenário político brasileiro. A esperança, porém, é de que as mudanças sejam irreversíveis.

"Não sabemos exatamente o que acontecerá, mas essa área tem muita força e conseguiu manter as conquistas até agora. A minha geração conseguiu ter acesso a esses recursos muito jovem, é fruto desse olhar do governo para o setor", afirma Ribeiro. (Da agência DW)


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