Somos os filhos da revolução?

autor Vitória Colvara

Postado em 19/04/2018 16:10:54 - 15:56:00


Estamos buscando cada vez mais pela verdade, não por uma verdade/Arquivo/Reprodução/Divulgação

Nosso planeta, de uma forma geral, está em crise e que se faz necessária uma revolução sustentável

Você já parou para pensar em como vai ser sua vida daqui a nove anos? Nove meses? Nove semanas, dias, horas, segundos? Eu não estou falando apenas do seu planejamento financeiro, nem da sua almejada carreira de sucesso. Também não quero saber o que os outros esperam de você, ou o que o seu diploma espera de você, ou se você espera por um diploma.

Tente fazer um exercício de regressão, esqueça tudo o que te ensinaram a querer, o que te ensinaram a gostar. Esqueça o que te disseram que era bom ou ruim, certo ou errado. Por um instante, volte a ter a inocência de uma criança que ao ser perguntada sobre o que quer ser quando crescer, responde de maneira encantadora e criativa.

Eu acredito plenamente que nenhuma criança imagina que a vida adulta se resuma a ficar sentada atrás de um computador em uma repartição pública ou empresa, esperando a hora de ir embora, enfrentando filas enormes no self-service para almoçar rapidamente gastando pouco. O Mujica uma vez falou sobre a importância do nosso tempo, para ele tempo não é dinheiro, tempo é vida e a gente tá gastando vida pra ir atrás de dinheiro. Calma, não estou tentando convencer ninguém a abrir mão dos seus empregos. É só uma questão de ponto de vista e de priorizar o que realmente importa.

Crianças reclamam quando são colocadas em suas cadeirinhas dentro do carro, onde terão de ficar por horas sem nada para fazer num trânsito maluco. Isso me lembrou quando uma amiga ficou sem carro e teve de levar a filha de ônibus para a escola. Adivinhem só? A menina simplesmente adorou e passou o dia comentando com os coleguinhas sobre sua aventura. Crianças preferem caminhar, correr, andar de bicicleta ou pegar um ônibus, uma van, um metrô, cheio de possibilidades de interação social.

Bom, por mais utópico, poético, romântico e ideológico que possa parecer, eu e mais alguns malucos, acreditamos que o nosso planeta, de uma forma geral, está em crise e que se faz necessária uma revolução sustentável. E não só acreditamos que ela seja possível, como temos inclusive algumas ferramentas para possibilitar sua concretização. Preparem seus coraçõezinhos para incorporarem esses cinco instrumentos em seus modos de vida:

Visioning

Rede de Comunicação

Sinceridade

Aprendizado

Amor

Eu sei que parece desconfortável confiar em instrumentos tão suaves diante da complexidade que é a vida em sociedade, mas se deem a chance de comprovar que tudo isso é mais que um mero sonho.  

O visioning significa eliminar a descrença, os desapontamentos passados. É a ideia de idealizar um futuro melhor que vai variar conforme as necessidades de cada um, conforme o contexto social e político que cada um esteja inserido. Mas que sempre, inevitavelmente, vai esbarrar na questão da preservação dos recursos naturais, afinal, não há ninguém que possa imaginar um futuro sem água, oxigênio e alimentos.

A rede de comunicação tem um poder imenso, tem unido as pessoas nos quatro cantos do mundo. Graças a essa viralização de informação, várias pessoas se mobilizam em diferentes partes do mundo e conseguem preservar espécies em extinção, pressionar os governos para adoção de políticas sustentáveis, salvar as mais variadas formas de vida. Outro dia, eu compartilhei no meu Facebook algo que aconteceu numa manhã de segunda, no elevador do meu prédio. Escolhi as palavras buscando causar empatia no leitor, de modo a tentar fazer com que cada pessoa que lesse se imaginasse naquela situação e, para minha agradável surpresa, minha pequena anedota teve mais de 7 mil compartilhamentos. Os memes mais compartilhados atualmente são os que refletem em maior ou menor medida a  S I N C E R I D A D E.

Está chegando ao fim a era dos exageros nos photoshops, da beleza inalcançável, das propagandas enganosas das Barbies que andavam de patins (fui iludida a infância inteira). Estamos buscando cada vez mais pela verdade, não por uma verdade dogmática e absoluta, mas por uma verdade que possa ser questionada, discutida, debatida. A sinceridade está dando as caras, e nós temos que abraçá-la.  Sinceridade na divulgação de informação, nas relações pessoais, nas relações de trabalho. As mentiras distorcem o fluxo de informação, e são propagadas aos quatro cantos como agrotóxicos lançados sem necessidade sobre uma plantação. Ninguém quer um líder político perfeito, impecável e que prometa mundos e fundos. Nas próximas eleições queremos líderes que se comportem como gente de verdade, que sejam suscetíveis aos erros.

Aprender envolve, sobretudo, permitir-se. Envolve um processo de confiança no compartilhamento de conhecimento. Aprender pressupõe humildade. Diferente daquele nosso sistema educacional que vigorou por tantos anos, hoje o conhecimento não é meramente transmitido de cima pra baixo. Os professores dialogam com os alunos. É uma via de mão dupla, onde todos saem ganhando. O aprendizado tem se tornado cada vez mais horizontal. Algo que os mais tradicionalistas veem como um caos, o fim da hierarquia e do autoritarismo. Não é mais o seu chefe que vai chegar e te dizer o que você deve fazer ou como você deve fazer. São seus colegas de trabalho que no dia a dia compartilham informações com você e você compartilha com eles.

Aos poucos estamos fazendo nascer uma sociedade de pessoas cujo prazer não se resume a comprar e comprar e comprar. Estamos estimulando a troca mútua, o reaproveitamento. Queremos aprender a fazer as coisas. Queremos aprender a cozinhar, limpar a casa, tirar aquela mancha do nosso vestido preferido, trocar o pneu do carro, trocar a lâmpada, consertar o portão. Queremos produzir nosso próprio alimento ou pelo menos saber onde e como ele é produzido. O tal do DIY (do it yourself) ou no bom e velho português faça você mesmo, está ganhando cada vez mais adeptos nesse mundo globalizado. E com isso, estamos descobrindo talentos que seriam engavetados caso não fossem estimulados ou suprimidos por um plano de carreira mais que perfeito.  

E por fim, mas de forma alguma menos importante, está o amor. Não nos é permitido falar sobre amor no ambiente de trabalho, exceto se utilizado em campanhas de marketing. O amor está dissociado do nosso sistema produtivo, tão dissociado que não nos importamos em comprar algo que tenha sido produzido sob o regime de escravidão em algum lugar da Ásia, desde que seja mais barato. Em tempos de modernidade liquida, o amor escorre pelos nossos dedos. Mas é somente através do amor e da empatia, que seremos capazes de dar sustentabilidade às nossas ações.

A revolução não acontecerá do dia para noite e tampouco será atribuída a um grupo especifico de pessoas ou a partidos políticos ou a concepções religiosas. A revolução da sustentabilidade será orgânica, viva, multifacetada e transformadora. E ela começa a partir da influência de cada um sobre os demais. 


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