O padre que fez o papa meditar

autor Misto Brasília

Postado em 15/04/2018 07:52:42 - 07:29:00


Padre José Tolentino Mendonça que fez as reflexões para a Cúria Romana/Nuno Ferreira/Publico

Os textos das meditações que o também poeta e exegeta bíblico propôs ao Papa agora está num livro

O “Elogio da Sede” foi o tema que o padre José Tolentino Mendonça propôs ao Papa Francisco, quando este o convidou a orientar os exercícios espirituais da Quaresma para os responsáveis da Cúria Romana – a primeira vez de um padre português.

Com o mesmo título, foi anteontem posto à venda o livro (ed. Quetzal) que reúne os textos das meditações que o também poeta e exegeta bíblico propôs ao Papa e aos seus mais diretos colaboradores. O autor de “A Noite Abre os Meus Olhos” diz que a espiritualidade não se pode “confundir com um conjunto de abstrações”.PUB

No tempo litúrgico que antecede e prepara a Páscoa, os cristãos são chamados a repensar a sua vida à luz da fé que professam. Esse desafio pode assumir a forma de um encontro de reflexão ou meditação, muitas vezes chamado de “exercícios espirituais”, adotando a expressão cunhada por Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas. “Um exercício espiritual é, sobretudo, um momento de encontro, uma viagem ao interior de si, uma abertura ao que pode ser a voz de Deus, um balanço da própria vida”, explicaria Tolentino Mendonça, nesta entrevista ao site Público.

Foi isso que, durante cinco dias, entre 18 e 23 de Fevereiro, aconteceu em Ariccia, perto de Roma: duas meditações diárias, e o resto do tempo em silêncio, para cada pessoa se confrontar com a reflexão proposta. “O silêncio com que vivemos este retiro podia interpretar-se como uma sede”, acrescentava o padre português.

No livro A Nuvem do Não-Saber, de final do século XIV – que muitos historiadores da matéria consideram “um dos mais belos textos místicos de todos os tempos”, como recordava José Mattoso na edição portuguesa (ed. Assírio & Alvim) –, o autor anónimo escreve: “[À] pergunta: ‘Que buscas? Que desejas?’, responde que era a Deus que desejavas ter: ‘É só a Ele que eu cobiço, é só a Ele que busco e nada mais senão Ele’. E se te perguntar quem é esse Deus, responde que é o Deus que te criou e redimiu, e por sua graça te chamou ao seu amor. Insiste que acerca d’Ele tu nada sabes.”

Tópicos da entrevista

A teologia não pode ser uma ideologia nem a espiritualidade se pode confundir com um conjunto de abstrações. Qual é o contributo da literatura? É trazer uma “concretude” muito grande, é trazer histórias de vida, modelos do vivido, do pessoal, do individual para uma reflexão de conjunto. Nesse sentido, é um papel muito grande, porque é uma espécie de zoom sobre a realidade. É muito envolvente sentirmo-nos dentro de uma história.

A grande vantagem de utilizar o texto bíblico e a tradição espiritual cristã, mas também a antropologia, o cinema, a literatura, a pintura e as artes em geral é permitir uma tradução existencial da mensagem cristã”.

“O grande perigo, numa viagem interior, é habituarmo-nos à nossa própria vida e a rotina acabar por dominar. É um fazer por fazer, os acontecimentos são mecânicos. Na vida dos padres, por exemplo, há um retiro anual, que o próprio calendário impõe. E, a dada altura, é como se um piloto automático estivesse a comandar a nossa vida e já não fôssemos nós próprios”.

“O espanto é poder abrir os olhos, poder dar-se conta do que somos, do que está perto de nós, do que está longe. É ganhar um olhar crítico sobre a nossa própria realidade, perceber que muitos gestos, à custa de os repetirmos, se tornam tiques e manias, e se esvaziam da autenticidade fundamental. Por isso, a primeira palavra do retiro é esse “espanta-me”, mais uma vez. Como se pudéssemos ganhar um olhar novo, um primeiro olhar sobre a nossa própria existência. É essa frescura que permite a infiltração do espírito nas nossas vidas”.

“Crer não é satisfazer-se, não é ter as soluções nem ter encontrado as respostas. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura. Nesse sentido, mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benefícios da sede, a importância de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente não possui Deus, não o domestica com os seus rituais e as suas crenças. Ele vive na expectativa de Deus e da sua revelação que, em grande medida, é sempre surpreendente, é sempre inédita. Por isso, a sede é um lugar necessário no itinerário cristão, que precisamos de revisitar”. 

“A dada altura, falo da necessidade de revalorizarmos mais uma espiritualidade da sede. E percebermos que, mais do que estar a produzir respostas para perguntas que não escutámos dentro de nós e dentro dos outros, o importante é perceber a sede como uma palavra que Deus nos diz. Deus coloca-nos numa situação, em ato, em experiência, mais do que numa montra ou pódio onde a vida já aparece concluída e rematada. O tempo da Igreja, o tempo da crença, é um tempo de inacabamento, de construção, é um estar a caminho, é um fazer-se”.

“São necessidades maiores, também para o clero e para a Igreja, que foram os primeiros destinatários desta palavra. É muito fácil, em todas as condições de vida, experimentarmos a radical solidão do existir e não encontrarmos interlocutores para as grandes questões, para as grandes sedes que trazemos no coração. Essa solidão torna-se uma espécie de peso, de custo existencial, com o qual nos conformamos: vivemos como podemos viver”.

A grande ideologia dominante, hoje, é o consumo. Já não é tanto uma ideologia política, mas uma transversalidade que faz de nós consumidores de alguma coisa e continuamente estimulados a isso. Qual é o problema da sociedade de consumo? É que ela não suporta a sede, não suporta o desejo. Todos os desejos são para ser realizados no mais imediato possível. A satisfação dos nossos desejos é colocada como uma promessa fantasma ao alcance da mão”.

“Qual é o problema? É que já não há espaço para grandes sedes, para grandes desejos, porque vivemos numa sociedade de satisfação permanente. E de uma satisfação enganadora porque, verdadeiramente, um desejo que se possa satisfazer de um momento para o outro não é um verdadeiro desejo humano. Por isso, cada vez mais sentimos que não há espaço para que a vida alimente grandes sonhos, grandes paixões, grandes viagens, grandes utopias, grandes generosidades...”

“Isso faz de nós pessoas mais desencontradas consigo mesmas. Esta sociedade da satisfação imediata deixa-nos muito insatisfeitos porque vivemos num mecanismo de viciamento e impulso, e não vivemos por ter alimentado, dentro de nós, de forma paciente, longa, discernida, demorada, um grande desejo, uma verdadeira vontade, um sopro de liberdade, de criatividade. Mas vivemos neste condicionamento”.

“Isto reflete-se em todas as dimensões da nossa vida: é assim com as necessidades elementares da vida e é assim com as nossas relações uns com os outros, que acabam por ser, também, de consumo. Acabamos por nos consumir uns aos outros e não há um verdadeiro encontro, uma verdadeira espera, uma hospitalidade autêntica do outro. Diminuímos a nossa capacidade de esperar uns pelos outros: ou é no imediato ou já não funciona. E essa aceleração antropológica – que as tecnologias, os emails, os telefones têm acentuado – seca-nos por dentro e desumaniza-nos. Uma sociedade de consumo é, fundamentalmente, uma sociedade desumanizada”.

“A Bíblia é um manual da sede. Podemos ver a Bíblia inteira a partir dessa dinâmica da sede e da água, mas de uma água que se acorda dentro da própria sede. “Aos sedentos, eu darei a beber a água viva”, diz Jesus – que é, no fundo, a água do espírito. Quando Jesus diz “tenho sede”, a seguir entrega o espírito”.

“Mas o Deus de Jesus é um Deus pobre, é um Deus desconcertantemente frágil, vulnerável. Um grande teólogo do século XX, Dietrich Bonhoeffer, diz que Jesus vem anunciar um Deus fraco, um Deus frágil. O Deus dos cristãos é um Deus frágil. É um Deus que se anuncia não na força, não no poder, não no exercício de uma transcendência que nos esmaga, mas no vagido de uma criança que nasce na manjedoura de Belém ou no grito do crucificado no alto da cruz. O grito da criança ou do crucificado representam-nos um Deus diferente”.

“Por isso é tão importante que a teologia nos ajude a fazer um exercício crítico em relação às imagens de Deus, que têm de ser purificadas, para que a nossa inscrição no mundo traduza o Deus de Jesus Cristo e não um Deus que a própria vida de Cristo veio negar”.


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