Santinho na eleição

autor Vitória Colvara

Postado em 19/03/2018 08:49:16 - 08:28:00


A distribuição dos chamados santinhos nas eleições é ainda uma prática comum/Arquivo

Estavam todos empolgados com a modernidade do equipamento e eu, apesar de criança, já sabia votar

 

As eleições de 2018 se aproximam e por mais virtual que tenham se tornados as campanhas políticas desde o fenômeno Marina, em 2010, que sem apoio empresarial e sem propaganda eleitoral conseguiu despontar como a terceira mais votada na disputa presidencial, eu acredito que uma prática permanecerá por longos anos em nosso país: a distribuição de santinhos.

Ora, para os menos letrados e pouco escolarizados, essa história de voto é complicada. Aí vem alguém e diz que é obrigatório e em contrapartida a pessoa pede que lhe seja ensinado a votar. Isso me lembra uma anedota que se passou comigo no interior do Maranhão no auge das eleições de 2002 e eu era apenas uma criança.

Um deputado estadual, cujo nome não irei revelar, me entregou uma mini urna. Parecia com uma dessas moderninhas de passar o cartão de débito. Pois bem. Lá eu simularia a votação. Estavam todos empolgados com a modernidade do equipamento e eu, apesar de criança, já sabia votar.

Até certo ponto tudo ia muito bem. Os candidatos eram os mesmos dos meus e eu estava adorando a brincadeira, tempos em que ainda existia a famigerada fidelidade partidária. Até que chegou a hora de escolher o deputado estadual e deu erro.

- Tiooo, a sua maquininha ta quebrada.

- Como quebrada? Você que não sabe mexer, deixa o tio te ajudar...

Quando ele percebeu o erro, riu, e foi tomar satisfação com o meu pai que também riu e disse que criança fica recebendo santinho na rua e aí já vota igual ta no papelzinho. Uma gargalhada só e eu sentada, intrigada.

Já no caminho de volta pra casa, cobrei explicações do meu pai, disse que tinha feito tudo certo e que não tava votando em santinho coisíssima nenhuma. Ele riu e me explicou todo o contexto político e explico que se a maquininha era dele, só tinha como votar nele, mas que nas urnas eu poderia votar em quem eu quisesse, desde que eu soubesse o número.

O que eu sei é que desde que voto é número, o povo enlouquece. A eleição para o papa, no Vaticano, é bem mais simples: num pedaço de papel se escreve o nome do seu escolhido.

É claro que isso seria inviável no Brasil com o sistema eleitoral que nós temos que é tão moderno, mas tão moderno, que não atende às necessidades do verdadeiro povo brasileiro que na inocência acaba por eleger santinhos e não representantes políticos de um Estado Democrático de Direito.

 


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