A brincadeira que virou negócio

autor Misto Brasília

Postado em 10/02/2018 08:41:12 - 08:24:00


Musa da escola Mancha Verde de São Paulo no desfile de sexta-feira/Divulgação/Liga

História mostra que a folia nasceu sob forte opressão e hoje é controlada por empresas

Quase cem anos antes das tensões no Rio de Janeiro entre as escolas de samba e o atual prefeito (e ex-bispo da Igreja Universal) Marcelo Crivella, a autoridade máxima da República assistiu a uma apresentação carnavalesca que tinha como enredo "A corte de belzebu".

Nos festejos de 1911, a agremiação carnavalesca Ameno Resedá exibiu ao presidente Hermes da Fonseca uma alegoria do inferno ilustrada por demônios, chifres, rabos e tridentes.

"O presidente, segundo os testemunhos, gostou do que viu e julgou a experiência nas profundas do capeta como algo mais tranquilo do que o exercício do poder federal", narram o historiador Luiz Antônio Simas e o jornalista Fábio Fabato em "Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos".

Os governantes do passado podiam se divertir no Carnaval, mas desde os primórdios da tradição no Brasil já se revelavam atritos e tentativas de disciplinar a festa. E foram africanos e seus descendentes - justamente os principais responsáveis pela originalidade do Carnaval brasileiro - que mais sofreram com o ímpeto controlador.

Desde o século 18, escravos produziam no Rio bolas de cera usadas no entrudo, festa europeia dos tempos pré-Cristianismo e considerada uma das precursoras do Carnaval.

Em "100 anos de Carnaval no Rio de Janeiro", o sambista e escritor Haroldo Costa conta que os limões-de-cheiro, como se chamavam os artefatos, eram enchidos com água ou urina e atirados pelos foliões uns nos outros.

Autoridades imperiais proibiram a prática e reservaram as penas mais severas para escravos infratores: em 1857, um delegado determinou que eles deveriam sofrer cem chibatadas ou passar oito dias na cadeia se violassem a regra.

Mesmo assim, o entrudo sobreviveu e foi se misturando com outras tradições, como as procissões católicas portuguesas, e práticas que chegavam ao Rio vindas principalmente do Nordeste, entre as quais as congadas, os autos de Natal, os afoxés e as lapinhas. O Carnaval carioca estava sendo gestado.

Depois da abolição da escravatura, em 1888, e da proclamação da República, no ano seguinte, a então capital federal inchava com levas de migrantes - muitos deles ex-escravos em busca de trabalho.

Moradores novos e antigos paravam nos primeiros carnavais do século 20 para assistir aos ranchos, primeiros grupos a desfilar com mestre-sala e porta-estandarte.

Até então, diz o historiador Luiz Antônio Simas, "não havia nada de verdadeiramente original no Carnaval do Rio, um amálgama de manifestações de várias culturas".

O pulo do gato ocorreu nos anos 1930 com as primeiras competições entre grupos de sambistas que surgiam em morros e subúrbios de maioria negra. A partir dali adotava-se como trilha sonora principal da festa o samba urbano, nascido no Rio décadas antes.

Para Simas, o Carnaval de rua do Rio e de outras grandes cidades hoje corre o mesmo risco que as escolas de samba correram: "elitizar-se e ser capturado por uma lógica empresarial que tire sua espontaneidade".

Para atender aos públicos cada vez maiores, muitos megablocos têm recorrido a patrocínios e se submetido a regras rígidas, como horários para o início e fim dos festejos.

Em contrapartida, os patrocinadores - muitas vezes marcas de cerveja - costumam exigir que só se vendam seus produtos no bloco e que possam criar áreas VIPs.

O modelo, diz Simas, já capturou o Carnaval da zona sul e do Centro do Rio, que vai perdendo suas características populares. Segundo ele, hoje o Carnaval "mais pujante" da cidade sobrevive fora das áreas turísticas, nos subúrbios da zona oeste e em bairros da zona norte, como a Tijuca.

O Estado tentou, mas quem parece estar tendo mais sucesso em disciplinar o Carnaval são as empresas. (Da BBC)


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