O Facebook para a classe C

autor Misto Brasília

Postado em 25/11/2017 22:44:06 - 22:34:00


Meninas usam celular no interior da Bahia/Reprodução/Juliano Spyer

Política partidária não é discutida por esse grupo de pessoas na mais popular rede social

O antropólogo Juliano Spyer mergulhou no cotidiano de um povoado no norte da Bahia por 15 meses. Instalou-se, criou laços, adicionou e foi adicionado em centenas de contatos no Facebook e em seus grupos de WhatsApp.

Ele passou a compartilhar os dramas sociais, enredos amorosos e memes da paisagem real e virtual, tanto pública quanto privada, da comunidade de cerca de 15 mil habitantes cujo nome ele preferiu preservar, conta Flávia Marreiro, do El Pais, que entrevistou o pesquisador.

O resultado da incursão, seu doutorado na University College London (UCL), no Reino Unido, se transformou no recém-lançado Social Media in Emergent Brazil, um dos estudos qualitativos mais completos disponíveis de como as classes populares no Brasil usam e incorporam a Internet e as redes sociais.

A obra faz parte de uma série da universidade britânica que compara o panorama em nove países. Spyer aponta um abismo que separa o tipo de uso político das redes nas classes mais abastadas e nos estratos mais pobres do país e fala do impacto dos evangélicos nessas comunidades.

O grupo impressionou tanto o autor que ele já prepara novo livro sobre o tema que, por ora, leva o título Crentes, uma revolução popular brasileira.

Seu livro conta que não é comum na comunidade que você estudou postar opiniões políticas, mas mostra, por exemplo, o caso de uma evangélica que publicou as fotos de seu casamento no Facebook para marcar a vitória ante o pastor local que se negou a casá-la porque ela já morava com o namorado. As redes são armas políticas para as classes populares, mas não como a gente pensa?

Exato. A rede pode ser e é usada no jogo local de poderes, como ferramenta para mostrar conquistas ou atacar rivais, mas não para discutir visões sobre a política como fazem os setores mais escolarizados. A classe C não usa o Facebook para mobilização política. Para os meus vizinhos no povoado a política é palpável. Eles querem saber se o posto de saúde vai ficar aberto 24 horas, se a rua será asfaltada, se a escola que fechou porque o governo suspendeu o pagamento dos funcionários terceirizados da limpeza vai reabrir. Mães estão sendo incorporadas ao mundo do trabalho formal, o que confere grandes vantagens para a família em termos de benefícios e estabilidade, mas traz novas dores de cabeça. Essas mães não estarão na vizinhança para ficar do olho nos filhos e por isso elas querem saber quando o governo oferecerá atividades que deem alternativa para que a filha ou o filho não fiquem pela rua desacompanhados – por exemplo, atividades físicas ou aulas de línguas. Eles não precisam da Internet para saber desses problemas porque são dificuldades diárias da vida no brasileiro das camadas populares. E eles também não precisam das mídias sociais para se articularem, porque essa articulação já existe nas redes tradicionais de ajuda mútua, que se baseiam na proximidade física entre as pessoas.

Nem durante a campanha esse tipo de post político aparece?

Os moradores não discutem política por entenderem que os políticos os veem como cidadãos de segunda categoria. O candidato aparece nas campanhas prometendo mundos e, depois que é eleito, desaparece. Veja um caso relativamente comum de um tema político que motivou protesto no povoado: um grupo de moradores se organizou para fretar ônibus e fazer manifestação na frente da prefeitura contra a presença de caminhões de carga transitando irregularmente no povoado. A passagem desses caminhões quebra o asfalto, levanta poeira e provoca problemas respiratórios. Desde que eu saí de lá, há três anos, a situação piorou porque os caminhões agora passam de madrugada, poluindo o ar e também, por causa do barulho intenso, atrapalhando o sono das pessoas que acordam de madrugada para trabalhar.

Os adolescentes no seu livro aparecem angustiados com o "trabalho" de estar nas redes sociais. Não é preocupante essa captura?

Falo do adolescente vendo sua presença na rede social como um trabalho porque – como acontece também em grupos adolescentes das camadas médias e altas – há uma associação entre popularidade off-line e número de amigos ou seguidores online. Mas não acho que o problema que você aponta afeta especialmente adolescentes. Na verdade, talvez os adolescentes sejam os menos afetados porque – no caso dos do povoado – muitos têm essa ambição de ampliar suas fronteiras buscando contato com pessoas fora de seus círculos diretos. É comum a crítica de que o uso da Internet é ruim porque o jovem passa a escrever usando gírias e sem se importar em obedecer às regras gramaticais, mas o que vi é que eles aprendem a escrever com menos erros por pânico de passar vergonha na frente de seus pares nas redes. O uso da Internet é a primeira motivação real para eles aprenderem a ler e a escrever. Um dos motivos explícitos do encantamento que eles têm pelas redes sociais é que os pais deles têm muito menos educação formal e conhecimento tecnológico e, consequentemente, não conseguem acompanhar o que acontece ali, então os jovens tem mais liberdade de comunicação. É ali, por exemplo, que os evangélicos universitários se sentem seguros para manter vínculos com pessoas de outras religiões e visões de mundo, inclusive com seguidores das religiões de matriz africana. Eles fazem isso para combater a visão estereotipada que existe sobre evangélicos, e mostrar a seus colegas como eles não são alienados ou bitolados no que a Bíblia diz. O jovem, portanto, está mais aberto para circular por grupos diferentes enquanto os adultos estão mais circunscritos a determinados círculos sociais.


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