Amores

autor Misto Brasília

Postado em 27/08/2017 20:02:30 - 19:58:00


A desconfiança dos bem comportados na arte do amor/Arquivo/Reprodução

Quem amou, pode até virar amigo, mas nunca verá o outro sem vestígios do que só viveram juntos

Texto de Viviane Roussenq

Sempre desconfiei dos amores que sucumbem com frieza, racionalidade, equacionados, medidos em sua extensão – se é que se pode mensurá-los-, para com pura lógica serem descartados.

Desconfiei de quem disse amar uma vez e com uma régua, medir o tamanho do sentimento. Quem amou um dia, se amou pra valer, não fica indiferente ao outro que foi parte tão visceral de sua vida em determinado momento da caminhada.

Quem amou, pode até virar amigo, mas nunca verá o outro sem vestígios do que só os dois viveram juntos ou do que poderiam ter vivido. Quem realmente amou não tem explicação para o desenlace.

Só sabe que um dia se entregou sem manual de garantia a um sentimento que as palavras nunca conseguiram definir em sua tão profunda e complexa natureza. Quem amou, não esquece nem o ruim, nem o bom.

Não há amor que tenha findado no plácido entendimento sem que tenha deixado seu rastro na memória atordoada. Sempre desconfiei de amores que acabam como chuva de verão, dos amores bem comportados em sua finitude.

Sempre desconfiei dos bem comportados que ousaram dizer que amaram dentro de suas acomodadas razões. Sempre desconfiei daqueles que disseram um dia amar sem que perdessem por instantes, anos, ou pela eternidade algo que apenas aquele amor tinha.

Sempre desconfiei do amor passível de morte natural, morte súbita, indolor. Penso eu: foi outra coisa aquilo, chame lá como quiser: meteoro, paixonite, febre, vertigem, voragem, mas não foi amor. Não foi. E se foi amor mesmo, cabe nele até esta adorável música brega.


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