O que há por trás do jeitinho

autor Misto Brasília

Postado em 23/08/2017 21:07:44 - 20:54:00


O ''malandro'' Zé Carioca incorporou a imagem do jeitinho brasileiro/Arquivo/Obvious Lounge

Decifrar essa cultura do brasileiro é bem complicado e muitos acham que é a gênese da corrupção

A crise fez muitos brasileiros questionarem o que há de corrupção em seu próprio dia a dia – se políticos e empresários envolvidos em escândalos estariam apenas repetindo, em maior escala, aquilo que já seria parte do cotidiano. Em discussão, o chamado "jeitinho", termo amplo que pode ser entendido positiva ou negativamente, e que, para alguns, é terreno fértil para a corrupção sistêmica.

Mas, para pesquisadores ouvidos pela DW Brasil, esta correlação precisa ser analisada com cautela, e é difícil determinar uma relação de causa e efeito. Enquanto para uns o jeitinho pode estar intimamente ligado à corrupção em larga escala, outros contestam o termo até como algo exclusivamente brasileiro.

O historiador Sidney Chalhoub, da Universidade de Harvard, destaca a origem histórica do jeitinho, ligada à formação escravista da sociedade brasileira, numa época em que a única maneira de se conseguir algo era pedindo favores aos senhores de terra e escravos. Essa prática, em vez de desaparecer, perdurou e combinou-se com outras lógicas.

O antropólogo Roberto DaMatta ressalta as inúmeras definições do jeitinho, que podem ser percebidas de maneira positiva ou negativa, dependendo da situação em que se inserem. Por essa diversidade, Da Matta afirma que é importante fazer uma distinção entre os inúmeros casos.

"O jeitinho tem um espectro que vai de uma simpatia humana, que se reconhece no outro e abre uma exceção para esse outro em virtude de uma emergência ou condições de vida, a até arranjos de contratos especiais superfaturados de obras públicas concedidos para amigos e parentes, com objetivo de dividir lucros, o que é corrupção”, diz.

O sociólogo Sérgio Costa contesta o jeitinho como característica própria da sociedade brasileira. Para o pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, a interpretação e negociação de normas existentes ocorre em qualquer sociedade moderna, inclusive na Alemanha.

O pesquisador Mads Damgaard, da Universidade de Copenhagen, também rejeita a relação entre jeitinho e corrupção. "Essa conexão é superficial e nociva, pois projeta uma imagem ou uma identidade de uma nação perpetuamente atolada na política de coronéis e no nepotismo. Essa percepção reprime mudanças sociais, induz a apatia e justifica casos de corrupção sistêmica e individual ao propor uma explicação cultural falha”, opina.

Para Bruno Brandão, da ONG Transparência Internacional, o jeitinho, ao mesmo tempo que abre espaço para atos de corrupção e a sua tolerância, é também uma maneira que pessoas encontram para sobreviver e superar obstáculos impostos por leis e instituições complexas e disfuncionais. Neste contexto, afirma, pode ser um elemento que estimula a criatividade.


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