Ex-guerrilheiros voltam a pegar em armas

autor Misto Brasília

Postado em 10/06/2019 09:05:21 - 08:57:00


Centenas de guerrilheiros das Farc e ELN voltaram às armas na Colômbia/Reprodução/Diário de Notícias

Membros das Farc e ELN, que mantém um acordo com a Venezuela, estão frustrados com o acordo de paz

Cerca de um terço dos combatentes da antiga guerrilha das Farc voltaram a pegar em armas depois do acordo de paz, representando uma ameaça à segurança no país andino, segundo um relatório confidencial da secreta militar ao qual a Reuters teve acesso.

O relatório interno diz que o número de combatentes que pertencem a grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) é de cerca de 2300, um aumento acentuado em relação aos 300 na altura do controverso processo de paz.

O documento militar também mostrou que o número de combatentes da guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) aumentou cerca de 8% para 2400 desde o final do ano passado.

Com a assinatura do acordo, quase 13 mil membros das Farc, incluindo mais de seis mil combatentes, entregaram as suas armas para que fossem destruídas e puseram fim à sua participação na guerra de cinco décadas que matou mais e 260 mil pessoas e obrigou milhões a fugirem de casa.

O relatório diz que há 31 grupos dissidentes das Farc operam em regiões onde há plantações de coca -- o material a partir do qual se produz a cocaína -- e em áreas de mineração ilegal de ouro. A Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína. O número estimado de combatentes é cerca de 30% superior ao último balanço oficial, que datava de dezembro.

"Se olharmos para onde estes grupos armados organizados estão ou onde apareceram, está ligado ao crime: onde há uma forte presença de tráfico de droga ou de mineração ilegal, ou em áreas de fronteiras, especialmente próximo da Venezuela", disse à Reuters o general Luis Fernando Navarro, comandante das forças militares da Colômbia.

O partido político das Farc que foi formado após os acordos de paz diz que, além da pressão para se juntarem aos grupos dissidentes envolvidos em atividades ilícitas, os ex-combatentes estão pegando em armas por frustração em relação à falta de oportunidades económicas e raiva e por raiva em relação à estigmatização e à violência contra eles.

O presidente colombiano, Iván Duque, tem tentado alterar os acordos de paz -- que resultaram num Nobel da Paz para o ex-presidente Juan Manuel Santos -- porque diz que eles são muito lenientes para com as Farc, que estiveram envolvidas em décadas de raptos, tráfico de droga, extorsão e homicídios.

Uma tentativa de extraditar para os EUA o ex-comandante das Farc Jesús Santrich, acusado de tráfico de drogas, falhou, mas irou outros ex-líderes das Farc consideram que o presidente Duque os quer prender a qualquer custo, apesar dos acordos de paz.

Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk Analysis, uma consultora de risco sediada em Bogotá, disse que as tentativas do governo de "reinserir" ex-rebeldes na vida civil foram frustradas pela violência e discriminação e o falha de alguns dos projetos de emprego criados ao abrigo do acordo de paz.

O governo diz que apoia 186 projetos individuais e coletivos que beneficiam 1404 ex-combatentes com investimento de mais de quatro milhões de dólares. Alguns dos projetos são em áreas onde as Farc tinham anteriormente presença armada.

Líderes da Força Alternativa Revolucionária do Comum, o partido formado após a assinatura dos acordos de paz que manteve a sigla de Farc, alertou para o facto de a morte de 139 ex-combatentes também levou ao aumento do número de dissidentes. Culpam os paramilitares de extrema-direita por muitas dessas mortes.

A Libertação Nacional (ELN) participou em negociações de paz com o governo de Santos, mas Duque cancelou-os de forma indefinida depois de um ataque à bomba em Bogotá que foi reivindicado pelo grupo armado.

Agora, segundo o relatório da inteligência militar, 45% dos combatentes da ELN -- incluindo os seus comandantes -- estão escondidos na vizinha Venezuela e recebem proteção do presidente Nicolás Maduro. O governo venezuelano reconheceu no passado que o ELN entra no país, mas nega apoiar o grupo rebelde.


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