Meu tão sincero obrigada à França

autor Maya Félix

Postado em 14/04/2019 08:58:29 - 08:17:00


Parte do bairro Belleville, um dos mais tradicionais de Paris, a capital francesa/Arquivo/Divulgação

Franceses me ensinaram a gentileza. De esbarrar em alguém na rua e pedir “pardon!”, “excusez-moi!”

Estava pensando em como fui feliz em Paris. De verdade. O conhecimento de outro povo, outra língua, outro clima... Mas não sei se ficaria tão encantada por outro país como fiquei pela França. Eu sou grata ao povo francês por ter me acolhido durante quatro anos, primeiro, e depois em outros períodos.

Eu descobri o mundo. Eu tive uma dimensão da minha sensibilidade aberta. Foi um processo de encantamento à medida que eu conhecia mais o povo, a cultura, a culinária, os hábitos, as gírias (as gírias, então!), os lugares secretos que só quem mora conhece. Os amigos tão queridos que foram surgindo.

Com os franceses aprendi que uma refeição É o programa. É o mais importante da noite. É o acontecimento. Começa com drinks e petiscos e pode chegar ao cigarro e ao café. Um almoço à l’ancienne tem rituais, cada prato é saboreado sem pressa. Um vinho bom acompanha. Também aprendi que um sanduíche de baguette, presunto e queijo vale para um almoço, e que almoços são rápidos. Um vinho bom acompanha.

Vejam, eu disse “um vinho bom”. Não é um vinho necessariamente caro. Aliás, os franceses adoram vinho nacional. Nunca vi vinho chileno servido por amigos franceses. Aprendi que prazer é ter amigos à mesa, compartilhando o vinho e o pão. Este foi sem dúvida o melhor e o mais importante aprendizado que tive na França: o prazer de estar à mesa. Como em A Festa de Babette, a mágica de um bom vinho, de uma comida honesta.

Os franceses me ensinaram que casa neuroticamente limpa não é importante. Ao contrário dos suíços, os franceses relaxam quando a questão é serviços domésticos. Não significa que não morem bem, não se vistam bem, não tomem o café da manhã. Significa apenas que não vivem despejando água sanitária no banheiro o tempo todo, mas, vejam só! Os “produits” de limpeza são tão eficazes que não rola mau cheiro e fica tudo limpo, mesmo.

Os franceses me ensinaram a apreciar um bom vinho, mas também uma boa água mineral com gás. Pois é. Cheguei lá, em 1996, e uma Perrier custava mais barato que uma garrafinha de vidro de Coca-cola. Que delícia. Que delícia, uma Perrier bem gelada no verão. Quantas vezes saí de bicicleta e passei meu dia conhecendo a cidade. E a grana dava para uma Perrier, e era o ponto alto da minha tarde.

Franceses me ensinaram a gentileza de, ao esbarrar em alguém na rua, pedir “pardon!”, “excusez-moi!” O amor aos livros. O amor às histórias em quadrinhos. O amor a cada cidade, Toulouse, Biarritz, Prasmouquier, Mâcon, Nîmes, Bormes-les-mimosas, Strasbourg, Bréhat, Sant-Malo e tantas outras. Inesquecíveis.

Os franceses me apresentaram a Marcel Marceau em oficina de verão portes ouvertes e a Molière encenado no original. Acreditem, não é pouco. O Louvre, que maravilha. Um pequeno café na esquina, homens de sobretudo, a primavera colossal de Paris. Pouco falo do meu amor pela França, pelo povo francês, pela cultura, a inigualável culinária. Mas o que sinto é tão sincero que até dói, porque vou menos lá do que gostaria.

Quando falo francês, minha entonação de voz muda. Não sou mais eu, mas uma outra nascida em Paris e criada un peu partout. Sou eu de Belleville, meu bairro amado, nordeste de Paris, do restaurante vientnamita que tem aquela salada de lula com molho à la citronelle (capim limão). Pagaria uma passagem ida e volta só para comer ali de novo.

A civilização de Paris 1996 era peculiar. Havia gentileza, circunspecção, uma cordialidade que poderia ser confundida com naïveté. Queria tanto dizer que a França e seu povo, sua cultura, sua língua mudaram minha vida. Tanto aprendi, tanto vivi.

Me vem à memória o café que havia em frente à villa onde em morava, no 19e. Uma senhora acordeonista vestia um macacão branco, pintava seu rosto de branco também e tocava seu acordéon até de madrugada, algumas vezes por semana, sempre à noite. Recebia as moedas que quem queria colocava em seu chapéu. Havia uma alegria e um sentimento de gregaridade tão intenso ali. Uma alegria momentânea, posto que todos iriam embora. Mas guardo aquilo na memória como se fosse um filme: todos acompanhavam as músicas cantando. Muitas eram de Edith Piaf. Havia muito vinho, e era barato. E era bom.


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