Bolsonaro - o Congresso depois da eleição das Mesas

autor André Pereira Cesar

Postado em 05/02/2019 09:04:18 - 08:52:00


Vitória de Davi Alcolumbre está ligada também a uma articulação do Planalto/Divulgação/Ag Senado

A questão agora gira em torno da capacidade política do novo presidente do Senado Federal

Situação geral - as eleições para as Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal foram absolutamente distintas. Enquanto os deputados chegaram a um acordo para a recondução de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e os demais integrantes da Mesa, os senadores quase chegaram às vias de fato. O processo vivido nas duas Casas terá consequências importantes para o governo Bolsonaro.

O embate no Senado Federal - poucas vezes na história o Senado viveu sessões tão tumultuadas. O racha na Casa veio à público e as cenas de pugilato transmitidas pela TV certamente não melhorarão a imagem da Casa. Além disso, os demais cargos da Mesa ainda precisam ser definidos, em meio ao ambiente conturbado. O governo Bolsonaro precisará estabelecer um canal de negociação diferenciado com os senadores, sob risco de ver a agenda econômica ameaçada.

Entendimento na Câmara dos Deputados - ao contrário do Senado, a Câmara decidiu a composição da Mesa sem maiores sustos. Além da tranquila vitória de Maia em primeiro escrutínio, a distribuição dos demais cargos, a princípio, atendeu aos interesses dos partidos. Boa notícia para o Palácio do Planalto, que poderá negociar a agenda com os deputados em relativa tranquilidade.

A novidade Alcolumbre - a aposta no quase novato e praticamente desconhecido Davi Alcolumbre (DEM-AP) surtiu efeito. O senador, judeu de origem marroquina, surpreendeu a muitos e derrotou os demais postulantes à presidência, em especial Renan Calheiros (MDB-AL). A questão agora gira em torno da capacidade política do novo presidente de tocar a agenda em meio ao turbilhão. Há quem compare Alcolumbre ao ex-deputado Severino Cavalcanti, que presidiu a Câmara durante poucos meses em 2005. Os próximos meses serão fundamentais para o êxito de sua gestão.

Rodrigo Maia - o deputado fluminense consolida-se como importante liderança política nacional e, mais ainda, credencia-se para ser o principal fiador da agenda econômica do governo. Bom negociador, Maia tem em mãos plenas condições de estabelecer um pacto entre seus pares para aprovar a reforma da Previdência ainda no primeiro semestre.

A força política do DEM - apesar de ter bancadas apenas medianas na Câmara e no Senado, o DEM emplacou as presidências das duas Casas. O partido sai fortalecido do processo, e esse fato certamente terá impacto nos projetos políticos de outras lideranças, como o prefeito de Salvador, ACM Neto, o governador goiano Ronaldo Caiado e o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Esse último, por sinal, tenta se reaproximar de Rodrigo Maia, o que seria positivo para o DEM como um todo. 

PSL - aos poucos, o ex-nanico PSL vai conquistando espaços importantes na Câmara. O presidente nacional do partido, deputado Luciano Bivar (PSL-PE), assumiu a segunda vice-presidência da Casa, posição de caráter estratégico. O partido do presidente Bolsonaro, que já controla a liderança do governo, tentará agora o comando de comissões importantes.

PT e PSDB isolados - antigas forças políticas nas duas Casas, PT e PSDB perderam espaço no início da atual legislatura. Na Câmara, ocuparão apenas postos de suplência na Mesa, e no Senado foram meros coadjuvantes no processo de escolha do presidente. Resta saber se ambos terão capacidade de reação ao longo dos próximos meses.

Renan Calheiros - grande derrotado no Senado, o líder alagoano já dá sinais de que fará oposição dura ao governo. Apesar de enfraquecido por ora, é do conhecimento geral que Calheiros tem forte capacidade de resistência - e já o demonstrou em outros momentos de sua vida política. O emedebista poderá se tornar um problema para o sucesso da agenda governista.

Considerações finais - o saldo final é misto para o governo. Câmara fortalecida, Senado dividido. É evidente que outras questões políticas deverão aparecer no caminho - CPIs incômodas para o Planalto, ou a convocação de ministros, por exemplo, podem contaminar o ambiente. Tudo dependerá da evolução dos fatos e do desempenho dos atores-chave do processo político.


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