O papel da mídia com o novo governo

autor Misto Brasília

Postado em 02/01/2019 08:04:13 - 07:49:00


Relações da imprensa mudam com posse de governantes mais conservadores/Fotomontagem

Para especialista, a imprensa precisará se reinventar, investindo em análise e contextualizações

A ascensão de extremistas e populistas de direita pelo mundo representou um novo desafio à imprensa tradicional. Muitas vezes alvo direto de ataques, ela vem tendo dificuldades de atuar num cenário inundado por "fake news". Para a cientista política Paula Diehl, docente nas Universidades Humboldt de Berlim e de Bielefeld, a imprensa precisará se reinventar nesse contexto, investindo em análise e contextualizações.

"Ser neutro não significa falar sempre bem e mal de cada um. Se um ator político é antidemocrático e é antidemocrático o tempo inteiro, isso tem que ser mostrado. Neutralidade não quer dizer distribuir críticas em quantidades iguais a todos os partidos políticos, mas sim utilizar os mesmos critérios para a crítica", destaca a pesquisadora especializada em populismo, nazismo e comunicação na política.

Em entrevista à DW, Diehl comenta as estratégias midiática de Jair Bolsonaro, que inicia seu governo neste 1º de janeiro, e avalia como a imprensa deve se portar diante da chegada da nova extrema direita ao Planalto.

Tópicos da entrevista

É muito difícil não prestar atenção no que o presidente fala, o que ele fala é por definição importante. A imprensa está numa situação muito difícil porque tem que noticiar o que o presidente fala, principalmente, se for um absurdo. O único jeito de lidar com isso é criando formatos de jornalismo investigativo que possam, ao mesmo tempo, provocar um interesse emocional, mas sem sair da seriedade do jornalismo investigativo. Isso é muito complexo e difícil, mas nos Estados Unidos já está acontecendo”.

O jornal The New York Times, por exemplo, depois que o Trump assumiu, lançou a série "The Daily", que são podcasts de cerca de 20 minutos sobre um tema específico, dando um espaço maior, que geralmente não há no jornal, para pautas. Essa série tem um teor de jornalismo investigativo e abre uma perspectiva ampla com relação ao tema, além de permitir um envolvimento emocional do público na investigação, criando uma identificação com o repórter.

"A questão é onde estão os formatos que poderiam ser interessantes para a mídia não perder a audiência e, ao mesmo tempo, continuar fazendo um jornalismo investigativo. O segundo ponto é não abdicar da crítica, se determinado partido ou político age de forma antidemocrática, isso deve ser dito e analisado”.

Tudo indica que sim (confronto imprensa X governo). Agora, se esse confronto vai acontecer no Brasil de uma forma mais discursiva, como é o caso do Trump, que está o tempo todo atacando a mídia, ou se haverá leis repressivas, como foi o caso da Hungria e da Turquia, ainda não dá para saber. Até agora, Bolsonaro atacou a imprensa discursivamente e ameaçou retirar anúncios governamentais da Folha de S. Paulo, que seria algo entre essas duas direções.

“Pode acontecer o mesmo que está acontecendo nos Estados Unidos, onde as críticas ao governo passam a ser descritas como "fake news" pelo presidente e seus assessores. Vivemos numa sociedade onde a preocupação com o fato está perdendo cada vez mais relevância. Quando políticos começam a responder às críticas ou a confrontações com fatos incômodos com a estratégia "essa é minha opinião, essa é a sua opinião", o fato perde completamente a importância. Com isso, o problema de algo ter acontecido ou não fica suspenso porque vira uma questão de opinião”.

“A imprensa tem que trazer os fatos, caso contrário, ela não tem mais função. A imprensa precisa estar muito atenta às críticas e fazer uma análise de discurso quando um político fala que A é B, para mostrar os parâmetros que estão sendo utilizados para modificar o sentido das palavras e dos fatos. Ela precisa analisar e contextualizar. O jornalismo precisará investir nesse tipo de análise, pois só dizer que o fato não corresponde com o que está sendo dito não vai funcionar, é preciso mostrar passo a passo como as palavras daquele que está distorcendo os fatos estão mudando de sentido”.

“A imprensa vem de uma crise, principalmente o jornalismo impresso, que começou nos anos 1990, quando cada vez mais a profissão do jornalista começou a ser precarizada. Essa precarização tem um efeito enorme no conteúdo. Um jornalista precário não pode se "dar ao luxo" de realmente pesquisar a fundo o que vai escrever, porque tem que escrever muito mais do que um jornalista com um emprego fixo. Além disso, o jornalismo está cada vez mais dependente de agências internacionais, o que torna os jornais quase todos iguais, inclusive na televisão. Há pouco investimento em jornalismo crítico e investigativo. Um dos pontos positivos da eleição do Trump foi que o jornalismo crítico nos Estados Unidos ganhou importância e há um grande investimento das redações e das emissoras neste sentido. Se será feito um investimento semelhante no Brasil e se ele dará certo, não dá para dizer, pois depende de leis que possam vir depois da posse de Bolsonaro.”


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