Como alimentar o planeta em 2050

autor Misto Brasília

Postado em 05/12/2018 12:09:09 - 12:03:00


Produzir mais alimentos sem destruir todas as florestas é um desafio gigantesco/Arquivo/BNDES

Relatório divulgado hoje aponta várias soluções para alimentar a população em 2050 sem mais desmatar

Texto de Alexandra Prado Coelho

Vamos precisar de produzir muito mais comida para alimentar o mundo em 2050 – mais 56% do que a que produzimos hoje e, no caso específico de produtos de origem animal, perto de 70%. Como poderemos fazê-lo sem comprometer de forma irremediável os recursos do planeta e sem agravar dramaticamente o aquecimento global?

O relatório Creating a Sustainable Food Future (Criando um Futuro Alimentar Sustentável), do World Resources Institute (WRI, organização sem fins lucrativos criada com o financiamento da MacArthur Foundation), divulgado nesta quarta-feira, aponta várias soluções para tentar encontrar esse equilíbrio entre a necessidade de alimentar 9,8 mil milhões de pessoas em 2050 e a urgência de manter o planeta viável.

Mas, primeiro, desfaz o mito de que já se produzem alimentos suficientes – uma ideia “que não é realista” e que pressupõe que “o mundo não só consuma menos produtos de origem animal […] mas que até 2050 elimine praticamente todo o consumo de carne; que as pessoas mudem a dieta substituindo a carne por legumes e cereais de alto rendimento atualmente usados para alimentar os animais; que todo o desperdício de alimentos seja eliminado; e que a comida seja distribuída unicamente em função das necessidades nutricionais de cada pessoa”.

O relatório parte de números de 2010 para fazer a estimativa do que poderá ser o cenário em 2050. Uma das primeiras conclusões é a de que, mesmo que não haja uma aceleração do crescimento das áreas destinadas à agricultura e pastagem, em 2050 precisaremos de mais 593 milhões de hectares para dar resposta à procura de alimentos – ou seja, será necessário libertar uma área que representa quase duas vezes o tamanho da Índia. Note-se que entre 1962 e 2010 desapareceram precisamente 500 milhões de hectares de florestas e savanas para dar lugar a terras agrícolas.

Isto acontece ao mesmo tempo que é necessário reduzir drasticamente a contribuição da agricultura (e em particular da criação de gado) para a emissão de gases de efeito de estufa. Parecem objetivos incompatíveis, mas os autores do relatório mantêm algum otimismo, embora avisem que atingir as metas a que se propõem “exige ação de muitos milhões de agricultores, empresários, consumidores e de todos os Governos”.

Fundamental, dizem, é aumentar a produtividade através de um uso mais eficiente dos recursos naturais. É preciso “produzir mais alimentos por hectare, por animal, por quilo de fertilizante e por litro de água”. E deixam um alerta: “Se os atuais níveis de eficiência na produção se mantiverem constantes até 2050, alimentar o planeta implicaria acabar praticamente com as florestas que ainda existem, fazendo desaparecer milhares de espécies e libertando gases com efeito de estufa que iriam exceder os limites de níveis de aquecimento de 1,5 graus a 2 graus estabelecidos no Acordo de Paris – mesmo que as emissões de todas as outras atividades humanas fossem totalmente eliminadas”.

Há margem para melhorar a relação entre a produção de um quilo de carne, a emissão de CO2 e a disponibilidade de terra (2/3 do total de área agrícola é para pastagem), dadas as diferenças em produtividade que existem entre as várias regiões do mundo. Para isso, é necessário que os governos dos países em vias de desenvolvimento estabeleçam metas de produtividade e “as apoiem com maior ajuda financeira e assistência técnica” e que sejam postos em prática sistemas para controlar essa produtividade.

A melhoria das sementes pode ser conseguida com a tecnologia de edição do genoma (CRISPR-9), desenvolvida em 2013 e que tem ainda um grande potencial a explorar, considera o relatório, que defende a necessidade de se aumentar os fundos dedicados à investigação na agricultura, tanto por organismos públicos como por privados.

Igualmente importante é apostar nas técnicas de revitalização dos solos degradados e também estabelecer uma ligação entre os ganhos de produtividade e a proteção dos ecossistemas (algo que pode ser feito através de medidas públicas e o relatório refere algumas já praticadas no Brasil). Outra área na qual as novas tecnologias podem ter um papel importante é a da redução da fermentação entérica, ou seja, dos gases dos bovinos, que são uma das maiores causas do efeito estufa. 

(Alexandra Prado Coelho é repórter do Público)


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