O amor é misericórdia e justiça

autor Misto Brasília

Postado em 18/11/2018 08:52:40 - 08:39:00


Peterson diz que devemos decidir entre igualdade de gênero, a de rendimentos /Arquivo/LibertyWorks

Professor de Psicologia fala sobre gênero, minorias, esquerda-direita, homossexualidade e religião

Jordan Bemp Peterson é professor catedrático de Psicologia da Universidade de Toronto e um fenômeno no YouTube com mais de 1,5 milhão de seguidores.

Escreveu livros como “Maps of Mening”, que teria revolucionado a psicologia das religiões” e as “12 regras para a vida”. Embora pareça ser um livro de auto-ajuda — Quer ser uma pessoa melhor? “Levante a cabeça e endireite as costas” é a regra n.º 1 —, Peterson percorre a história da humanidade, recorrendo à biologia, à psicologia, à religião (a Bíblia é sobejamente citada), à literatura e até aos filmes da Disney. Peterson escreve: “As pessoas podem sobreviver a muita dor e perda. Mas, para perseverar, devem ver o bem no Ser. Se perdem isso, estão verdadeiramente perdidas.”

Veja alguns dos trechos da entrevista concedida a Bárbara Wong, do Público.

“O amor é uma combinação de misericórdia e justiça. Se a misericórdia for muita, as pessoas abusam e isso não é saudável. Eu não recomendo que se abandonem as pessoas, mas se elas desistiram de si próprias, então não podem arrastar-nos com elas. Por exemplo, os nadadores-salvadores quando fazem um salvamento de alguém que está em pânico não se aproximam demasiado, porque senão correm o risco de se afogarem. Não ajuda. Por isso, dizem: “Mantenha a calma, para que eu possa ajudá-lo.”

“Há muitas situações na vida em que os pais têm de tomar decisões difíceis — por exemplo, quando expulsamos um filho de casa quando já tem 26 anos. É horrível, porque temos medo do que vai acontecer, mas tem de ser feito para que se torne autónomo. Há sempre uma tensão terrível quando temos de encorajar o outro e, ao mesmo tempo, queremos protegê-lo. Por vezes, a compaixão não é suficiente”

“Bem, o papel da escola [hoje] é ser um armazém de crianças, enquanto os pais estão a trabalhar! Se a pergunta for qual deveria ser o papel da escola, então não seria tão cínico e diria que é um espaço de socialização, onde as crianças aprendem a estar, fazem amigos, e isso é importante e necessário. E talvez aprendam alguma coisa, mas não estou convencido. Ao sistema escolar é exigido tanto que não é surpresa que não funcione bem”.

O ensino doméstico na América do Norte é adotado por famílias que são extremamente religiosas, por outras que suspeitam do sistema ou não estão contentes com as orientações ideológicas do sistema público. Por exemplo, a frequência de escolas católicas por famílias que não professam aquela religião acontece porque as famílias não se identificam com as ideologias niilistas e neomarxistas das escolas públicas. Por exemplo, as escolas básicas de Ontário têm orientações para ensinar literatura do ponto de vista da opressão: quem foi oprimido por quem? Não há uma justificação para esse tipo de ensino, quando estamos a introduzir as crianças na literatura, porque isso é uma subversão da literatura”.

“Mas a igualdade de gênero, a de rendimentos? Temos de decidir. Os estudos mostram que as diferenças entre homens e mulheres aumentam à medida que as sociedades se tornam mais ricas e têm mais igualdade de género. Não confio em nenhuma ideologia que procure promover igualdade, porque é tecnicamente impossível”.

“Porque as variáveis são muitas. Vamos definir: o que queremos é que em todas as profissões estejam representados todos os grupos, de acordo com a sua prevalência na população. Isso seria o ideal. Então temos dezenas de nichos e todos têm de ser preenchidos respeitando os grupos identitários. Quais? O sexo, a etnia, a idade, o grupo socioeconómico, a atratividade, o temperamento, a inteligência, a deficiência... Portanto, podemos duplicar o número de grupos sem limite e, de cada vez que acrescentamos um, vamos aumentar a complexidade do processo, o que levaria à criação de uma burocracia maciça”.

Homens e mulheres escolhem profissões diferentes. Nesse caso, vamos forçá-los a que escolham ocupações proporcionalmente à representação do género na sociedade [para cumprir a regra da equidade]? Portanto, nunca conseguiríamos aplicar. Vamos esquecer os CEO [haver mais homens em cargos de liderança do que mulheres], que a meu ver é só uma questão de inveja. Vamos aos níveis mais baixos, por exemplo, pedreiros e operadores de máquinas — 99% são homens. O que fazer? Vamos obrigar as mulheres a fazer esses trabalhos?”

“As mulheres ricas só se casam com homens ricos, logo, as disparidades são cada vez maiores, porque o dinheiro está nas mãos de cada vez menos pessoas. A razão por que o fazem é porque quando engravidam e têm filhos ficam vulneráveis e precisam de alguém em quem confiar. Fazem-no porque querem alguém competente comparando com os outros homens e comparando consigo mesmas. À medida que as sociedades se tornam mais igualitárias, as diferenças entre as personalidades dos homens e as das mulheres tornam-se maiores, assim como diferem mais os seus interesses”.

A predisposição que temos para a crença religiosa e a possibilidade da experiência religiosa é algo com que definitivamente nascemos. Porquê? Podemos responder “porque há provas de que Deus existe”. Mas não necessariamente. Contudo, há provas de que as experiências religiosas são universais. Não há nenhum antropólogo ou neurocientista sério que tenha dúvidas sobre isso. Se olharmos em termos psicológicos para o cristianismo, vemos a abstração daquilo que nós admiramos, um ser messiânico, alguém a imitar, mas é mais do que isso, porque é a separação entre o que é admirável e o seu oposto, a eterna batalha entre Cristo e Satanás ou a batalha entre o bem e o mal”.

“E podemos perguntar: reflete a estrutura da realidade? E a resposta é: não sabemos. Eu não excluiria essa possibilidade, porque nós refletimos a estrutura da realidade. Penso que a biologia reflete a metafísica, a confirmação está nos dois hemisférios do cérebro, a dinâmica entre caos e ordem. Não acredito que exista uma maneira melhor de interpretar o mundo do que como a batalha entre o bem e mal, a batalha entre o caos e a ordem. E este é um conceito religioso”.

“Qualquer organização tem tendência para a tirania, à medida que o tempo passa. É possível fazer uma analogia entre os primeiros passos do movimento LGBT e o movimento dos direitos civis norte-americanos e ver que houve um aumento, até ao infinito, do espectro da expressão sexual e de como as coisas podem ser levadas demasiado longe. A comunidade LGBT já ganhou uma guerra cultural: o cidadão comum não desaprova a homossexualidade e, se o fizer, não o diz. O casamento é legal. Ponto. Claro que ainda há preconceito, sim, mas não o suficiente que justifique o nível de ativismo, especialmente ligado à ideologia niilista e neomarxista”.