Quanto você tiraria na redação do Enem?

autor Vitória Colvara

Postado em 05/11/2018 15:01:52 - 14:48:00


A redação foi um exercício de capacidade do inscrito do Enem de 2018/Valter Campanato/Agência Brasil

A mensagem subliminar do enredo era justamente sobre o risco que estamos correndo diariamente

Boa parte dos leitores não faz a menor ideia do que seja, de fato, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Eu fui uma cobaia, fiz a prova em 2009 na primeira tentativa do Ministério da Educação de unificar o certame fazendo com que todos os brasileirinhos recém-saídos da escola se submetessem a mesma prova, às mesmas questões, buscando a tão ilusória e inalcançável igualdade.

Dividir os inscritos por ordem alfabética parece ser bem justo, exceto pelo fato de que a depender da sua inicial você pode fazer a prova numa sala com ar condicionado e carteira confortável ou numa sala com ventilador de teto, carteiras meio improvisadas e um mesa que mal cabe a prova, quanto mais as canetas, lápis, água, lanche e todas as parafernalhas que os jovens levam para tentar aliviar a tensão desse dia.

De 2009 para cá foram diversas mudanças. Muitas denúncias de fraude também o que leva a crer que a corrupção não é um crime cometido apenas por políticos; tem também aqueles que estão dispostos a pagar o equivalente ao curso completo em uma universidade particular para ter o gostinho de matricular seu filho na federal. É status. Faz parte. O que não dá pra entender é porque que os pobres atrasados do Enem recebem mais holofotes das mídias do que os fraudadores do exame.

Pois bem, o tema da redação de ontem foi “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Complexo. Principalmente, porque numa primeira leitura parece ser aquilo que todos sabem um pouco, mas que poucos sabem muito. O jovem que vive conectado ao se deparar com a palavra internet já deve ter vibrado, mas é como diz a canção: é como a falsa euforia de um gol anulado. O tema estava complicadíssimo e a bibliografia a altura seria Manuel Castells, alguém que provavelmente não consta em nenhumas das apostilas e livros didáticos do ensino médio.

Muito além de fake news e o raso entendimento do senso comum sobre o universo da rede virtual, a redação exigia conhecimento de algoritmo, criação de listas personalizadas, inteligência artificial e é claro, perpassar todos esses assuntos com uma proposta de intervenção que levasse em consideração os Direitos Humanos. Ufa! A mensagem subliminar do enredo era justamente sobre o risco que estamos correndo diariamente ao fornecer nossos dados e informações pessoais nas redes.

Apesar da crise dos caminhoneiros, o petróleo não está mais com a bola toda e hoje, em pleno século XXI, sociedade de risco, do consumo, da liquidez e outros tantos adjetivos dados a nós por autores contemporâneos com uma visão de futuro gigantesca, o que realmente tá valendo ouro são os nossos dados, nossos gostos, nossas compras e preferências. Estamos sendo bombardeados somente pelo que nos interessa e aos poucos, além de manipulados, ficamos cegos, burros e sem noção de realidade.

Nem as farmácias escapam da deep web. Listas com nomes e cpfs vinculados aos medicamentos que compramos já estão sendo vendidas aos planos de saúde para que a tabela de preço seja ajustável conforme a “necessidade” do paciente. E naquela ânsia por um descontinho aqui e outro ali, fornecemos nosso número, nosso cadastro de pessoa física às centenas de pessoas jurídicas que estão loucas para nos consumir.

Acho que tiraria nota baixa, não teria uma conclusão para esse tema e tampouco vislumbro uma possibilidade de intervenção no assunto. E olha que sou advogada e em tese deveria entender um pouco dessa violação de direitos que estamos sofrendo.

Só sei de uma coisa: os que rastreiam meus dados irão se deparar com uma personalidade minimamente excêntrica, para a qual “cérebro eletrônico nenhum dá socorro”.


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