A ameaça sobre a natureza selvagem

autor Misto Brasília

Postado em 01/11/2018 10:30:32 - 09:21:00


A extinção de áreas intocadas ameaçam espécies como o bicho-preguiça/Reprodução/DW

Brasil e mais quatro países têm 70% das últimas áreas de natureza selvagem intocadas do planeta

Mais de 70% das últimas áreas de natureza selvagem intocadas do planeta estão localizadas em apenas cinco países, entre eles o Brasil, afirmaram cientistas, chamando atenção para a insuficiente resposta de algumas dessas nações às mudanças climáticas.

O novo estudo foi divulgado na mesma semana em que o WWF alertou que as populações de animais do planeta diminuíram 60% desde 1970, devido sobretudo à ação humana. Watson e seus colegas da Universidade de Queensland e da Wildlife Conservation Society (WCS) afirmam que as áreas de natureza selvagem da Terra estão passando pela "mesma crise de extinção que as espécies".

Além do Brasil, Austrália, Canadá, Rússia e Estados Unidos compõem o grupo de cinco países, segundo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Queensland e da WCS, publicado na revista Nature. A pesquisa exclui áreas intocadas na Antártida e em alto mar que não estejam dentro de fronteiras nacionais.

No total, ainda há natureza selvagem intocada – áreas terrestres e marítimas praticamente não afetadas pela expansão da humanidade – em apenas um quarto do planeta. Elas são refúgio vital para milhares de espécies ameaçadas pelo desmatamento e pela pesca excessiva e fornecem alguns dos mais eficientes mecanismos de defesa contra eventos climáticos devastadores provocados pelas mudanças climáticas.

"Pela primeira vez, mapeamos áreas de natureza selvagem terrestres e marinhas e mostramos que não resta muito", afirmou James Watson, professor de ciência da conservação na Universidade de Queensland e principal autor do estudo.

"Um punhado de países abriga muito dessa terra intocada e eles têm uma grande responsabilidade de manter o que resta de natureza selvagem", alertou.

Os pesquisadores analisaram oito indicadores do impacto humano sobre a natureza, incluindo ambientes urbanos, terras agrícolas e projetos de infraestrutura. Em relação aos oceanos, eles usaram dados sobre pesca, transporte industrial e derrame de fertilizantes para determinar que apenas 13% dos mares do planeta têm poucas ou nenhuma marca da atividade humana.

Donald Trump – presidente dos Estados Unidos, um dos cinco países do seleto grupo – anunciou que seu país vai deixar o Acordo de Paris sobre o clima, assinado por quase 200 países e cujo objetivo é conter o aquecimento global.

Tal passo também foi sinalizado pelo recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, cujas posições em relação ao meio ambiente vêm repercutindo no cenário nacional e internacional e preocupando ambientalistas.

Na Rússia, vastas áreas de floresta de taiga e permafrost contêm trilhões de árvores que absorvem gás carbônico da atmosfera, atenuando os impactos das emissões de gases do efeito estufa. O governo russo, no entanto, tem sido vago quanto a seus compromissos em relação ao meio ambiente e o presidente  Vladimir Putin sugeriu no ano passado que as mudanças climáticas não são causadas pelo ser humano.

O mapeamento das áreas de natureza selvagem faz "soar os alarmes" da comunidade internacional, diz Watson. Devido ao consumo de combustíveis fósseis, madeira e carne, assim como à explosão populacional, somente 23% da Terra estão livres dos impactos da agricultura e da indústria, ressalta.

Algum tempo atrás - Há um século, as áreas intocadas correspondiam a 83% do planeta. Entre 1993 e 2009, uma área de natureza selvagem do tamanho da Índia foi perdida devido à ocupação humana, à agricultura e à mineração.

Os pesquisadores pediram mais leis para proteger áreas intocadas e incentivar a conservação ambiental. "É preciso que as nações legislem e não deixem a indústria entrar [nessas áreas]. A natureza precisa de uma pausa", afirmou Watson. "Acho que o mundo gostaria que esses [cinco] países dissessem que vão cuidar desses lugares". (Da DW)