Qual a sua vocação?

autor Vitória Colvara

Postado em 23/10/2018 08:54:20 - 07:43:00


A participação em concursos públicos é uma alternativa para driblar o desemprego/Arquivo/Divulgação

Há uma febre dos concursos públicos que provoca nomeação de servidores inexperientes e despreparados

Em um cenário político caótico e uma crise financeira que assola a todos os brasileiros, a ideia de passar em um concurso público e ter estabilidade profissional se apresenta como o pote de ouro no fim do arco íris. Concurseiro já virou profissão e cada vez mais pessoas, em sua maioria jovens, decidem dedicar boa parte do seu tempo para estudar para um concurso. Até aí tudo bem, mas será mesmo que esses milhares de candidatos se identificam com os cargos para os quais se inscrevem ou vão apenas pelo salário e pelas garantias?

Em fevereiro deste ano, na minha amada cidade São Luis, morreram três candidatos no Teste de Aptidão Física (TAF) para o concurso de Policial Militar. A notícia não teve o alarde que merecia e foi até um pouco abafada. Acontece que esse triste ocorrido deveria servir de reflexão. Todos três, sendo dois homens e uma mulher, estavam intelectualmente aptos para o cargo, posto que o que aufere a capacidade intelectual é uma prova de conhecimento com questões de múltipla escolha.

Mas não só, para ocupar o cargo de policial, bombeiro, delegado, entre tantos outros, exige-se uma postura minimamente combatente, uma preparação física suficiente para atividades padrões da profissão. É uma lástima que muitos dos candidatos a bombeiro querem salvar a si próprios, não aos demais.

O pior é que enquanto um morre casuisticamente no teste de aptidão física, tantos outros sonham em ocupar aquele cargo, mas não possuem preparo suficiente para a prova objetiva, ou não tem tempo para estudar. Pessoas que realmente se dedicariam para a profissão, mas que através de um certame um tanto quanto democrático, se vêem anos luz de distancia do almejado cargo.

E cada vez mais e mais servidores tiram nota máxima em direito público, mas se esquecem de algo simples do português, a etimologia das palavras. Servir ao público é se doar pelo bem da coletividade, trabalhar em prol de uma sociedade mais justa e digna, não se trata de bater o ponto quatro vezes na repartição e gozar das férias e demais privilégios.

Sempre que aponto um problema, gosto de apontar pelo menos algumas alternativas de solução. No caso da febre dos concursos públicos e da nomeação de tantos servidores inexperientes e despreparados, eu efetivamente não tenho a menor ideia do que deve ser feito. Em dois anos que trabalhei na Corregedoria Geral da Justiça do Maranhão, recebi pelo menos quatro juízes completamente insatisfeitos com a comarca em que atuavam, com queixas, a meu ver, bobas e insignificantes. Pessoas que se preparam arduamente para um certame sem ter ideia do que lhes espera no dia a dia da profissão.

A maioria das carreiras jurídicas possui cursos de formação, mas só esse curso que dura no máximo um ano, não tem se apresentado suficiente. Nunca foi tão alto a índice de pedidos de afastamento por motivo de saúde, mais especificamente, depressão.

Em apenas um ano, a PM concedeu 1.398 licenças psiquiátricas (fonte: O Globo) e a tendência é crescer. Talvez a saída seja uma prática que acontecia nas escolas, o famoso teste vocacional por meio do qual o candidato respondia uma serie de perguntas que o levaria para a sua profissão. Sugiro que tal teste seja aplicado a todos os alunos de direito que, no primeiro ano do curso, dizem tê-lo escolhido pensando em concurso público e estabilidade financeira.

O sujeito nunca entrou num presídio, mas se inscreve para o cargo de agente penitenciário. O outro que está acostumado com todas as mordomias da cidade grande faz concurso estadual sabendo que terá que viver no interior do estado por longos e longos anos.

E quem perde com isso? A sociedade é claro. Cidadãos comuns que custeiam através dos seus impostos os milhões de funcionários públicos do país.

Que fique muito bem claro que eu reconheço a importância do serviço público no nosso país, assim como já tive a oportunidade de trabalhar com inúmeros servidores totalmente compromissados com suas atividades laborais. Minha singela crítica vai para os que acreditam que passar num concurso é um fim em si mesmo e não um meio. 


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