O mercado está com Bolsonaro

autor Misto Brasília

Postado em 03/10/2018 08:54:48 - 08:41:00


Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, dá sinais de que deseja Bolsonaro na Presidência/Divulgação

Com uma carreira legislativa de mais de 27 anos, tem votado continuamente para preservar monopólios

A classe empresarial do Brasil está torcendo silenciosamente pelo candidato presidencial de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL), por estar receosa do regresso da esquerda ao poder na maior economia da América Latina.

A moeda do país e os mercados de ações têm recuperado, juntamente com os números de Bolsonaro nas sondagens.

Ontem, por exemplo, o Ibovespa fechou em alta de quase 4% em meio a especulações sobre o desfecho das eleições, após pesquisa Ibope mostrar aumento da vantagem Bolsonaro na liderança da corrida presidencial, em sessão com forte volume financeiro na bolsa paulista.

 O dólar registrou a maior queda percentual diária em três meses e meio e fechou em R$ 3,93, depois de ter flertado com os R$ 3,90 na mínima, com os investidores animados com o avanço do candidato do PSL nas intenções de votos à Presidência da República medidas pelo Ibope e maior vantagem em relação a Fernando Haddad (PT).

Bolsonaro é mais conhecido pelos seus ataques verbais contra os homossexuais e afro-brasileiros do que o seu apoio ao mercado livre, segundo observou a repórter Tatiane Bautzer. Com uma carreira legislativa de mais de 27 anos, tem votado continuamente para preservar monopólios pertencentes ao Estado e contra a reforma do sistema público de pensões.

Mas o homem que escolheu para conselheiro econômico, Paulo Guedes, um banqueiro formado na Universidade de Chicago, é bom o suficiente para muitos investidores e empresários. Alguns veem Bolsonaro como a alternativa menos má numa eleição que está ser tornando um duelo entre a extrema-direita e a extrema-esquerda.

Especialistas em sondagens preveem um segundo turno entre Bolsonaro e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que tem ganhado relevo nas sondagens. Muitos economistas culpam as políticas do PT, que governou o Brasil ao longo de grande parte dos últimos 15 anos, de terem provocado uma crise profunda no Brasil e cujos vestígios ainda pesam na economia.

Luciano Hang, proprietário da cadeia de lojas privada Havan, é um dos poucos executivos a apoiar Bolsonaro abertamente, cuja absoluta admiração pela antiga ditadura militar do Brasil e frequente denigração das mulheres e minorias tem afastado uma boa parte do eleitorado.

Ainda assim, Hang estima que “mais de 80%” das 300 pessoas que fazem parte do conselho empresarial a que pertence apoiam Bolsonaro, uma vez que os candidatos mais moderados da eleição presidencial começam a desvanecer-se.

“Empresários e empreendedores por todo o Brasil, em todos os segmentos do público, apoiam Bolsonaro e irão fazer campanha por ele”, disse Hang.

A aceitação crescente de Bolsonaro entre as elites empresariais do Brasil mostra como o cenário político polarizado está fazendo os eleitores moderados optarem pelos extremos e como uma corrida eleitoral imprevisível afeta a estabilidade dos mercados. A instabilidade já provocou o abrandamento dos mercados de fusões e aquisições e o de oferta pública inicial, o que provocou a descida do valor do real, que atingiu valores recorde face ao dólar.

Fernando Haddad, economista, tem reunido com investidores importantes para acalmar os receios de um regresso do PT ao poder. Conhecido pelo seu ar erudito e calmo, Haddad tem enfatizado as suas posições ortodoxas em relação à inflação, taxas de câmbio e défice.

Pacote dos petistas - Admitiu que é contra as reformas trabalhista e de previdência, propostas pelo impopular presidente Michel Temer. E já deixou claro que a sua administração iria gerir a empresa controlada pelo estado Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), e que esta funcionaria como um veículo para o desenvolvimento. Também abandonaria a venda do negócio de aviões comerciais da Embraer à Boeing Co.

Haddad publicou recentemente no Twitter que o mercado era “uma entidade abstrata que aterroriza o público”.

Os empresários admiradores de Bolsonaro vêem a sua escolha como uma razão para ignorar a retórica divisiva do candidato, as suas tendências autoritárias e as opiniões sempre em mudança sobre a economia do Brasil. Bolsonaro sugeriu uma vez que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fosse abatido por privatizar empresas governamentais, incluindo a mineira Vale.

Em contraste, Guedes, atualmente presidente da empresa de gestão de ativos Bozano Investimentos, é um defensor fervoroso da privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, controlado pelo Estado.

Se for eleito, Bolsonaro prometeu transformar Guedes num superministro, encarregado das finanças e planejamento, com liberdade para estabelecer políticas econômicas.

Guedes teve várias reuniões com bancos de investimento, chefes de empresas e investidores internacionais para os convencer a juntarem-se a Bolsonaro. O banqueiro também reuniu com membros do Ministério da Fazenda pelo menos três vezes numa tentativa de demonstrar a intenção de dar continuidade à agenda reformista de Temer, incluindo mudanças ao sistema de pensões insolvente do país. 

“Definitivamente, Paulo Guedes dá credibilidade à candidatura de Bolsonaro”, disse Cláudio Pacini, presidente do comércio de ações brasileiras na corretora norte-americana INTL FCStone, em Miami. “Juntamente com o receio da ascensão da esquerda, as duas coisas jogam a favor de Bolsonaro”.

Aliança frágil? - Mas alguns questionam quanto tempo durará a parceria entre Bolsonaro e Guedes, mesmo que o candidato seja eleito.

“Bolsonaro foi recentemente convertido ao liberalismo pró-mercado – não é o que defende, nunca foi”, disse Mônica de Bolle, diretora dos Estudos Latino-americanos da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, em Washington D.C..

Tais dúvidas intensificaram-se quando, no mês passado, Guedes propôs ressuscitar um imposto sobre transações financeiras pouco popular, para aumentar a receita. Esta ideia foi rapidamente reprovada por Bolsonaro, que estava no hospital em recuperação.

Guedes recusou comentar a divergência. Mas de Bolle, da Johns Hopkins, prevê turbulência. “Parece ser óbvio que Paulo Guedes não iria durar no governo de Bolsonaro”, disse.

Muitos questionam também se Bolsonaro seria capaz de governar eficazmente, se fosse eleito. Em quase três décadas no Congresso, não elaborou qualquer legislação importante. A formação política que o apoia, o Partido Liberal Social, o nono partido a que Bolsonaro pertenceu, tem apenas alguns votos na legislatura. Teria de criar alianças com outros partidos para conseguir fazer alguma coisa, uma tarefa na qual tem pouca experiência.

“O governo está falido e Bolsonaro não tem aliados para poder promover cortes orçamentais, e nem sequer tem historial de o fazer”, disse um banqueiro veterano de uma das maiores credoras do Brasil.


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