Toque de recolher para venezuelanos

autor Misto Brasília

Postado em 24/08/2018 09:00:09 - 08:48:00


Indígenas venezuelanos em abrigo Janokoida, em Pacaraima/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Grupos de moradores têm se unido para patrulhar e impedir que novos grupos de imigrantes

Os imigrantes venezuelanos que permanecem em Pacaraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, estão vivendo sob uma espécie de toque de recolher informal. Desde sábado, quando brasileiros expulsaram de forma violenta com paus e pedras cerca de 1,2 mil venezuelanos que estavam instalados de maneira improvisada no pequeno município, poucos são os que se arriscam a ficar nas ruas durante a noite.

"Antes do sol cair precisamos correr para casa, há grupos de brasileiros rondando e caçando os venezuelanos", diz Gustavo Luces, 36 anos, que há cinco meses deixou a cidade de Maturín, no Estado de Monagas, já às margens do Mar do Caribe, para buscar refúgio no Brasil. Ele, como a maior parte dos imigrantes que permanecem na pequena cidade fronteiriça, diz estar sendo ameaçado pelos brasileiros.

"A própria polícia faz vista grossa para os motorizados [motociclistas] que estão fazendo as patrulhas. Estamos sendo tratados como lixo, como animais", conta o motorista Miguel Ángel García, que teve todos os seus pertences e documentos queimados durante o ataque do sábado passado.

A polícia local, tanto a Civil como a Militar, refutam a informação e dizem que agora a situação na cidade se acalmou. No entanto, integrantes do movimento que organizou a manifestação violenta do último sábado afirmaram que grupos de moradores têm se unido para patrulhar e impedir que novos grupos de imigrantes voltem a se instalar nas ruas e praças de Pacaraima.

"Eu não recomendaria a nenhum venezuelano ficar nas ruas à noite, pode ser perigoso para eles", diz Wendel Lima, um vigilante de 31 anos que participou de maneira ativa dos ataques aos imigrantes no sábado, pouco antes de mais um protesto realizado pelos moradores locais.

Ele, no entanto, nega que haja violência de civis contra os venezuelanos. "O que estamos fazendo é o que foi acordado com a Polícia Militar. Encontramos alguém querendo se instalar aqui e chamamos a PM", diz ele, sem negar, no entanto, que a população pode se tornar violenta caso venezuelanos sejam encontrados dormindo nas ruas da cidade.

Fernando Abreu, um professor aposentado que assumiu o microfone no carro de som durante os ataques de sábado, afirma que as carreatas têm como principal função patrulhar a cidade e mostrar que os moradores não irão mais aceitar venezuelanos vivendo nas ruas de Pacaraima.

"Nós vamos impedir que eles fiquem aqui, estamos defendendo nossa casa, nossa integridade física", diz ele, que defende maior rigor no controle da entrada dos venezuelanos em Roraima. "Quase todos que estavam aqui eram criminosos, usavam as crianças para pedir dinheiro para eles."

Nesta quinta-feira (23), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, visitou o centro de acolhida aos imigrantes em Pacaraima. Ele refutou as acusações de que o governo federal tenha sido omisso no apoio à chegada maciça dos venezuelanos e disse que, a partir de agora, homens da Força Nacional irão patrulhar as ruas da cidade.

"Queremos evitar exatamente o empoçamento de imigrantes em uma cidade como Pacaraima. Vamos construir um abrigo de passagem entre a fronteira e Boa Vista", disse. Jungmann também afirmou que a fronteira entre o Brasil e a Venezuela não será fechada e disse que a situação está sob controle na região. "Estamos cuidando da segurança de todos, brasileiros e venezuelanos." (Da DW)